À mesa com os filósofos (1)

A experimentar

Escrever umas crónicas para um espaço onde existem as mais variadas formas de  abordagem à gastronomia obriga-me a ser diferente.

Escolhi viajar pelos livros e encontrar motivos para somar à mesa política, economia, filosofia, ética ou sociologia. Juntar autores e aquilo que deve compor uma mesa: conversa e amizade. É isso que vamos procurar fazer.

Para começar escolhi um livro, com um título delicioso, que vai dar para alimentar alguns artigos.

Normand Baillargeon, um filósofo canadiano, que ensinou na Universidade do Quebec, escreveu “À mesa com os filósofos”, que teve em 2019 uma edição portuguesa.

O livro é o resultado da sua reflexão envolvendo textos de filósofos, de vários tempos,  que falavam de alimentos, de cozinha e de alimentação.

Daí que se possa começar por fazer uma referência a Immanuel Kant ( 1724-1804), que gostava “de receber amigos ao meio-dia, em torno de uma boa refeição regada com um pouco de vinho”.

Podemos seguir um diálogo entre Platão, um matemático da Idade Média, Kilavyam, um economista e sociólogo americano do início do século XX, Verlen, que  discutem com um enólogo austríaco imaginário, Guttenwein a importância do vinho numa refeição.

Na sua “Antropologia de um Ponto de Vista Pragmático”, Kant escreve ser “desejável que não se coma sozinho”. “As refeições que se tomam na companhia de outras pessoas são uma manifestação da nossa verdadeira humanidade requintada”.

De seguida vamos para o refeitório de uma abadia medieval e convocamos S. Tomás de Aquino (1225-1274), com a sua “Duma Teológica”, para discorrer sobre o que é o pecado da gula. Equaciona se é um pecado, um pecado mortal, o maior dos pecados, um vício capital — e também as suas consequências.

Diz-nos S. Tomás de Aquino que o vício da gula “não consiste na substância do alimento, mas no desejo não regulado pela razão. É por este motivo que, quando se excede a quantidade normal de alimentos, não devido ao desejo, mas porque se entende que isso é necessário, não se trata de gula, mas de uma certa inexperiência. Trata-se de gula, quando se exagera conscientemente a comer.”

Depois chega o Século das Luzes e com ele Jean Jacques Rousseau e um inesperado convidado, John Locke, com a ideia de liberdade como ementa, para concluir que a mesa de ambos é bem diferente.

Encontramos a razão para tal no “Emílio ou da Educação”, de Rousseau, quando escreve que “este pão escuro (…) tão bom, bem do trigo colhido por este camponês; o seu vinho negro e grosseiro, mas refrescante e sadio, e da colheita da sua vinha; a toalha vem do seu cânhamo, fiado no Inverno pela sua mulher, pelas suas filhas, pela sua criada; nenhumas outras mãos, para além das da família, fizeram os alimentos da sua mesa; o moinho mais próximo e o mercado vizinho são, para ele, os limites do universo.”

Concluímos com Baillargeon quando diz que “alimentar-se é uma necessidade que transformamos num prazer, em torno da qual elaboramos rituais e que nos convida a todos a interrogarmo-nos e a tornarmo-nos um pouco filósofos.”

Eu acrescento então esta ideia de sermos os filósofos da mesa neste tempo difícil, na procura constante da sabedoria da gastronomia.


António Tavares
Professor Universitário de Ciência Política

 

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