Pedro Carvalho. “Deixem de seguir as pessoas que vos infernizam a relação com a alimentação”

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Deixar de seguir algumas pessoas é, segundo Pedro, o segredo para uma melhor relação com a alimentação e com o corpo. A MAGG falou com o nutricionista a propósito do livro “Os Novos Mitos que Comemos”.

Pedro Carvalho não é novo nesta realidade e luta há vários anos para desmistificar aquilo que são os mitos relacionados com a alimentação. Licenciou-se em Nutrição porque sempre gostou de comer, mas rapidamente percebeu a paixão pela profissão e nunca equacionou fazer outra coisa. Em 2011, começou a escrever crónicas para o jornal “Público” nas quais aborda vários temas relacionados com a nutrição.

Nos dias de hoje, em que as redes sociais fazem, inevitavelmente, parte da nossa vida, Pedro considera essencial que procuremos fontes fidedignas antes de nos guiarmos por todas as partilhas que vemos. Segundo o nutricionista, há cada vez mais a necessidade de nos protegermos dos “influencers e das dietas da moda” e é precisamente sobre isso que se debruça no livro “Os Novos Mitos que Comemos”, que chegou às bancas na passada quinta-feira, 15 de abril. “Deixem de seguir as pessoas que vos infernizam a relação com a alimentação, com a autoestima e que esbanjam todos os patrocínios que têm”, aconselha.

Em entrevista à MAGG, o nutricionista refere que já chegou a receber vários insultos devido ao que defende: “principalmente quando se fala de veganismo, lacticínios (…) os ânimos ficam muito inflamados”, diz. Numa altura em que as dietas são a preocupação de grande parte da população, Pedro defende que as pessoas devem, acima de tudo, ser felizes a comer. Na sua opinião, é a alimentação que se tem de adaptar à nossa realidade e não o contrário.

Sempre quis ser nutricionista?
Não tinha grandes expectativas quando tirei a licenciatura. Sem saber muito bem o que iria fazer, foi sempre um passo de cada vez e entrei na profissão um bocadinho por acaso. Sempre gostei muito de comer e sempre tive uma relação muito forte com a alimentação. Nunca cheguei a ser aquele típico caso da obesidade infantil, mas sempre tive uns quilinhos a mais e por isso sempre quis ter uma profissão ligada à alimentação. Desde que entrei em Nutrição, não equacionei sequer mudar. Agora o rumo que a profissão tomou — nem tanto a profissão em si, mas aquilo que é a comunicação em nutrição no espaço público — claro que é algo que não deixa ninguém muito orgulhoso.

Que caminho é esse que a comunicação em nutrição está a tomar?
É um caminho que é altamente condicionado por questões que, no fundo, são sempre comerciais. Quando nós estamos a falar de suplementos, a questão é comercial e quando estamos a falar de abordagens nutricionais, que vão contra o que é a evidência científica, também estamos a falar de questões comerciais. Mesmo que muitas não envolvam a venda de produtos em si, envolvem a venda de serviços (que são as consultas).

Para se ganhar um determinado espaço no mercado, muitas vezes, as coisas têm de ser feitas de forma diferente. Isto faz com que, para se ganhar esse espaço e para se ser dissonante, no mau sentido, se promova muitos tipos de dietas, mitos e abordagens que não vão ao encontro daquilo que é a evidência científica.

A profissão de nutricionista tem vindo a ganhar notoriedade nos últimos anos?

Tem. Porque existem também mais faculdades a formar nutricionistas, mais profissionais no mercado e, hoje em dia, sobretudo por parte dos profissionais mais jovens, existe muita comunicação e muitas páginas profissionais nas redes sociais a comunicar nutrição. Como tudo, umas têm mais qualidade do que outras, e é por isso que profissão tem ganho notoriedade. O positivo é que podemos aproveitar a parte boa disso e fazer escolhas alimentares muito mais acertadas e muito mais personalizadas do que fazíamos há uns anos, mas também há a parte má. A oferta aumentou, mas nem toda ela aumentou no melhor sentido.

Então acha que as redes sociais têm afetado a profissão de uma forma mais negativa do que positiva?
Existem bons exemplos até nas redes sociais só que, comparativamente aos maus, os bons são muito poucos. É muito mais fácil, se for leigo na matéria, ser contaminado pelos maus exemplos do que pelos bons, até porque os maus exemplos, regra geral, são sempre muito mais ruidosos. As pessoas que promovem pseudociência e que promovem mitos são sempre mais ruidosas nas redes sociais do que aquelas que se pautam mais por uma evidência científica e que têm sempre um perfil mais discreto.

Além disso, as pessoas com um perfil mais académico e universitário tendem a não comunicar muito nas redes sociais e quando o fazem, fazem-no sempre de uma forma que é muito para os colegas. Isso também acaba por ser um problema em si. Como é lógico, ninguém é obrigado a divulgar os resultados das suas investigações ou a ter esse serviço público, mas se mais profissionais o fizessem e dessem o corpo às balas em honra da ciência, se calhar o espaço mediático não era tão ocupado pelas pessoas erradas.

E é isso que quer tentar combater com o seu trabalho?
É isso que tenho tentado fazer desde 2011. É  lógico que, do ponto de vista de notoriedade, sempre que se lança um livro há um pico maior, mas eu, desde 2011, já fiz mais de 100 artigos sobre diferentes mitos. Agora, felizmente, existem outros projetos muito bons como por exemplo o blogue Scimed, do médico João Júlio Cerqueira, que também se destina a abordar todos esses mitos da atualidade que não têm que ver única e exclusivamente com a alimentação.

O livro que acaba de lançar já é o segundo sobre “Os Mitos que Comemos”, qual é a grande diferença relativamente ao primeiro?
Os temas não se sobrepõem. No fundo, o primeiro livro sobre os mitos foi um bocadinho um resumo daquilo que foi a minha produção escrita de 2013 a 2016 e este é um resumo, constantemente atualizado, da minha produção escrita para diferentes órgãos desde 2016 ou 2017 até 2021.  Claro que foi tudo revisto, até porque há coisas que eu disse em 2015 que agora, não é que sejam exatamente o oposto, mas já foram também ajustados em função das novas evidências que existem. O primeiro livro tinha um capítulo só sobre leite, glúten, frutose (…) — falava de muitos dos mitos que na altura existiam.

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