Prefiro não namorar

A experimentar

Durante muitos anos o namoro foi considerado como uma espécie de antecâmara do casamento. Na esfera das relações pessoais, um preliminar aconselhável, por muitos considerado imprescindível.

A ideia era que algum compasso de espera permitia um passo mais seguro com mais conhecimento de causa. Agora o que os mais novos querem não é segurança nem conhecimento, mas cada vez mais experiências novas. Mais do que certezas, querem surpresas.

Ao contrário das outras comédias desta vida, onde um mau ensaio pressagia uma boa estreia, no teatro da vida  é um bom namoro que costuma desaguar num bom casamento.

Como geralmente acontece, é difícil aceitar teorias em campos como estes dos vários tipos de casamentos, onde cada caso é um caso. E cada erro uma oportunidade desperdiçada.

Onde o namoro está repleto de oportunidades desperdiçadas é na nossa relação com os vinhos. Durante anos segui a doutrina que nos ensinava e cultivava a necessidade de um longo namoro com a garrafa antes de a abrir e consumir.

Costumo gabar-me de que não me arrependo de nada do que já fiz nesta minha vida de marinheiro entre sabores. Talvez valha a pena confessar esta excepção. Eu sei que elas sabem que eu sei o que perdi por as deixar envelhecer sem lhes tocar.

Erro meu, fortuna desprezada. Julguei que uma coisa boa devia ser preservada numa redoma, bem longe dos nossos desejos, porque iria melhorar com o tempo. Mais uma vez fiquei a saber que ninguém é bom juiz em causa própria. Mesmo que nos pareça uma conduta imprópria. Chegado aos sessenta, já não tenho dúvidas que nada ganha com a idade. Nem nós, quanto mais o vinho.

Namorar com elas é adiar uma experiência inadiável. Vê-las abertas à nossa frente é respirar com elas a vida que nos dão. Se o encontro não tiver o resultado esperado, ficamos a saber que foi bom não criarmos mais falsas expectativas. Correndo melhor, daremos  graças a Deus por não termos acumulado anos de sofrimento ignorante.

E podemos partir para outra com a noção que uma missão cumprida não precisa de ser comprida.


Manuel Serrão
Empresário

 

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