Vinha do Convento, a saudável obsessão pelo terroir

A experimentar

Mais do que as regiões ou as zonas dentro das regiões, hoje fala-se de vinhas. O trabalho apurado, aparentemente insano de tão focado, reflete uma atenção detalhista como não há memória no passado recente. A verdade é que há vinhas verdadeiramente especiais, detentoras de uma identidade que não consegue ser replicada noutro qualquer lugar. No Tejo, a Vinha do Convento, da Falua, é um bom exemplo.

Antonina Barbosa não consegue disfarçar o brilho nos olhos à chegada à Vinha do Convento. Será certamente o espelhar sincero do que lhe corre na alma, a expressão corporal de um sentimento maior perante um pedaço de terra que impressiona desde o primeiro contacto. Segue-se o sorriso da enóloga e diretora-geral da Falua quando a desafiamos a segurar nas mãos uma das milhares de pedras que o solo ostenta – calhau rolado, de diferentes dimensões, formas e pesos, resquícios da passagem por ali do rio Tejo, há 400 mil anos.
Não é nada comum vermos um chão de vinha como este em Portugal. Pelos estudos de solo realizados percebe-se que o calhau rolado existe em exclusividade até quatro metros de profundidade, permanecendo constituinte primordial até uns mais profundos 12 metros.

Estamos na sub-região da Charneca. Nesta Vinha do Convento deparámo-nos com um solo arenoso muito pobre em concentração de matéria-orgânica, mais ácido. As raízes da videira, em busca de nutrientes, são por isso mais longas e o desenvolvimento vegetativo da planta acaba por ser também diferente. Aliás, o modo como algumas castas por aqui se expressam é distinto do comportamento apresentado nas redondezas – as maturações são plenas, as uvas conseguem preservar a acidez natural, surgem mais concentradas mas sempre elegantes, expõem uma expressividade aromática igualmente distintiva. A assinalável amplitude térmica ao longo de todo o ciclo vegetativo é ainda importante para explicar a qualidade final do fruto. Os invernos são aqui frios e os verões chegam a ser tórridos, embora com noites frescas.

As castas brancas em maioria são Arinto, Chardonnay e Fernão Pires, a que se juntam as tintas Touriga Nacional, Castelão, Aragonês e Cabernet Sauvigon. A vinha foi plantada em 1996, ou seja, está a completar 25 anos. Por entre os 45 hectares de dimensão, as falhas identificadas têm vindo a ser preenchidas com novas plantas, uma operação manual, a exemplo da esmagadora maioria dos trabalhos realizados durante o ano, dado que apenas nos tratamentos fitossanitários se recorre ao auxílio da mecanização.
Permanente puzzle para quem faz viticultura e enologia, os humores da Vinha do Convento não são dos mais fáceis de descodificar. Antonina Barbosa explica que é frequente o controlo de maturações feito em laboratório não corresponder ao imediatismo de uma visita à vinha, onde uma prova de bagos rapidamente conclui ter chegado a hora de colher esta ou aquela uva, que em análise pareciam ainda não ter atingido o grau desejado. “É preciso, de facto, um acompanhamento mais próximo e muito pessoal das videiras e das uvas que aqui temos”, diz-nos.

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