Prefiro regressar

A experimentar

Ao princípio era o Verbo… No princípio dos tempos, em que esta crónica ainda não era nascida, foi a discussão do verbo que a fez nascer. Uma espécie de combate de verbos, ainda que o verbo combater aqui apareça como aparece no combate dos chefs. Onde não há mortos nem feridos e quem ganha é quem assiste, sentado à mesa.

Comecei por conjugar a preferência pelo verbo viajar mas, mais depressa do que demora voltar, já estava apaixonado pelo verbo regressar. Não que me assuste com a ideia das viagens sem regresso mas, para ser completamente honesto, devo confessar que muito mais emocionante do que viajar é regressar.

Quero acreditar que não é por ser português aqui que acredito assim. Talvez por ser de ter raízes e isso acontece em muitos terroirs. De vinhos e de pessoas. De quem vai e volta. Todos os que vão por vinhas vindimadas e voltam sempre pelos vinhos com saudade de os verem vindimar.

Do tempo em que viajar era mudar de continente lembro-me da descoberta do Torrontés em Buenos Aires. Se já não há territórios por descobrir, cada descoberta de um novo vinho de uma casta nova, faz de nós tripulantes de uma nova epopeia. Sequiosos de cada novo terroir. Amantes de cada nova experiência.

O Torrontés, qualquer Torrontés, servido fresco no calor da noite argentina justifica a viagem e as expectativas de quem viajou com elas. Os mais animados serão capazes de anunciar um novo milagre na terra de Messi. Os mais desconfiados hão-de perguntar quantas garrafas ainda sobram frescas no local. Sabendo que nem sempre o Messias pode velar por nós.

De repente, no meio do grupo alguém sugere que era bom levarmos algumas connosco. Era o regresso a chegar. Intruso e ciumento. Parece que não pode ver um viajante seduzido por uma nova descoberta, que desata logo a enchê-lo de tarefas. Pede, compra, paga, embrulha e traz!

Na verdade, o prazer da descoberta só fica completo quando somos capazes de regressar com ela. Como fosse impossível gostar de uma coisa se não tivermos a coragem de a mostrar. É por ser nova e vir de longe que ela merece a honra de voltar connosco. Mas é voltando que o seu valor acrescenta.

Por isso digo que prefiro regressar. Mas há quem prefira chamar-lhe um final feliz.


Manuel Serrão
Empresário

 

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