Surpreender pela diferença

A experimentar

A Sovibor, em Borba, lançou recentemente um vinho de talha à base de Moreto, uma casta autóctone portuguesa introduzida no Alentejo em meados do séc. XIX. Uma novidade rara já que a sua actual utilização para plantações desta casta no território é inferior a 0,5%.

Num país tão rico em castas, é estranho não haver mais produtores a aventurarem-se no desafio de produzir vinhos diferentes que surpreendam pela diferença. A Sovibor – Sociedade dos Vinhos Borges – foi mais além e enfrentou o desafio ao produzir um vinho monocasta – ‘Marmoré da Talha’ – à base de Moreto. Uma casta produtiva e de maturação tardia, mas ainda desconhecida por produtores e enólogos, já que não se sabe de onde vem e quem a terá introduzido em terras alentejanas (em Granja Amareleja, Borba, Estremoz e redondo) onde tão bem se adaptou.

Rita Tavares e António Ventura, os enólogos da Sovibor, explicam a necessidade que o produtor tinha de fazer uma marca de gama média alta, daí ter surgido a ideia de avançar com um vinho que marcasse a diferença. «O vinho foi produzido com a colheita de 2015 e lançado em 2017. As uvas de Moreto são provenientes de uma vinha com mais de 50 anos e foi vinificado em duas talhas de 1260 litros cada», explica António Ventura. «A vindima é manual, o desengace parcial e a pisa a pé é feita em lagar de inox. A fermentação é feita com leveduras indígenas», informa ainda o enólogo.

A Sovibor, que tem 85 talhas, a maioria adquirida em São Pedro do Corval, estão todas pesgadas. «Fazemos a vinificação de uma forma muito tradicional. As talhas são todas revestidas a pez (cera de abelha, resina de pinheiro e azeite) mas o que é curioso é que cada talha dá sempre origem a um vinho diferente, mesmo que pesgadas da mesma forma. No caso do vinho de Moreto também se sentiu alguma diferença, mas nada transcendente», revela Rita Tavares.

Vinhas Velhas
A Sovibor tem um património de 85 talhas, todas elas pesgadas

A área de vinha do Sovibor situa-se na sub-região de Borba e contabiliza cerca de 200 hectares, 80 hectares de vinha própria e os restantes pertencentes a produtores a quem compram uvas. Os solos são argilo-xistosos e encontram-se a uma altitude de 420 metros. A parcela de onde são provenientes as uvas de Moreto é pequena e tem mais de 50 anos. «A Moreto é uma casta de produções elevadas, e por isso nunca foi muito considerada mas, na verdade, quando a vinha envelhece, as produções são necessariamente menores e por isso as uvas revelam outro potencial enológico e dá origem a vinhos muito interessantes», afirma António Ventura. E é verdade. Na prova revelou-se um vinho de cor suave, com boa estrutura, frutado, com alguma acidez e boa persistência. Muito elegante e original, um vinho curioso que revela a qualidade de uma casta quase desconhecida.

Recorde-se que a Sovibor foi fundada em Dezembro de 1968 e resulta da fusão de dois pequenos produtores da região, as famílias Mira e Pinto, com grandes tradições no mundo do vinho. A sociedade instalou-se num edifício no centro da cidade de Borba, datado de 1740, anteriormente uma fábrica de sabão. A esse edifício foi posteriormente acrescentado um outro, sendo que é nestas estruturas que funcionam adega e armazém. Desde finais de 2014, é propriedade do grupo Sousa Tavares, que entre outras empresas detém a distribuidora Sotavinhos e a Quinta do Progresso. Logo pela altura da aquisição começaram as obras de remodelação e actualização do processo de produção, mas sem nunca roubar o espaço à tradição. Reflexo disso é, por exemplo, a aquisição e recuperação de talhas que, ocupando uma impressionante sala, são uma amostra de uma antiga forma de fazer vinho. A empresa aposta na reposição dos vinhos num patamar superior de qualidade e, consecutivamente, de maior preço. A equipa, liderada por Fernando Tavares (na foto de entrada com a sua filha e enóloga, Rita Tavares), tem em António Ventura o enólogo consultor, mas também na sua filha Rita Tavares a face mais presente nas áreas de coordenação e enologia.

O artigo foi publicado originalmente em Maria João de Almeida.

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