Uma tasca com a colher torta

A experimentar

Crítica de Take Away

O Velho Eurico

****

Tipo de cozinha: Portuguesa

Tempo: À hora marcada (Alvalade, Lisboa)

Entrega: Serviço próprio

Taxa de transporte: 5€ (grátis a partir de 40€)

A primeira vez que fui ao O Velho Eurico parecia que estava a entrar numa festa privada. A antiga tasca lisboeta tinha a porta de madeira fechada, lá dentro uma vozearia alegre, gargalhadas, copos a tilintar, talheres frenéticos, guerreiros urbanos a descomprimir do secretariado e do laptop, juventude adulta a aquecer para as noites longas do Cais do Sodré (ah, saudade).

A um canto, o quadro manuscrito com os petiscos do dia: bacalhau à Brás, choquinhos, croquetes de borrego, rojões, peixe frito. Parte da ementa honrava a herança do fundador, ex-carvoeiro viajado do Norte. Mas tudo o resto era diferente. A servir às mesas, só rapaziada, também eles cozinheiros, gente com a energia própria de quem está a fazer algo novo.

Ora, a vibração do lugar não passa, da mesma forma, no serviço de take away, pelo que temos de nos contentar com a comida —  o que já é muito e nos deve merecer gratidão. A ardósia encurtou para três ou quatro opções semanais, que O Velho Eurico anuncia no Instagram e no Facebook. Mas, para compensar, há a opção de petiscar também do menu da Colher Torta, projecto da portuense Ana Leão.

A história é bonita. Ana e Zé Paulo Rocha, proprietário d’O Velho Eurico, são uma das sinergias mais divertidas e gostosas que a crise provocou. Com o novo confinamento, a Colher Torta instalou-se na cozinha lisboeta d’O Velho Eurico— e por aqui tem estado a dar de comer aos morcões, com grande sucesso.

Foi assim que nasceu um jantar raro. Num lado da mesa, a melhor francesinha que alguma vez comi em casa. Não faltava nada, nem mesmo o ovo para estrelar antes de montar no edifício forrado a queijo, de estrutura sólida e porte alto. Gratinada no forno domiciliário, levou no fim o molho aquecido à parte, especiado e de alcoóis vários, capaz de nos tirar três noites de sono e trinta anos de vida. Para ensopar, palitos de batata assados em azeite.

A acompanhar, mais petisco sem mácula e sem recriações tontas em forma de moelas pequeninas (devem ter estado a estufar desde antes da entrada para a CEE, tal era o veludo do molho e a maciez da carne), acompanhadas de uma esmagada de batata com flor de manjericão, finalizada na frigideira. E a sobremesa, uma tarte de grão capaz de nos dar frescura cítrica e calor, prazer e nutrição.

Do outro lado da mesa, eis então outra marmita, outro estilo, Ana Leão à solta. Nessa semana, isso significou menos Médio Oriente do que é costume, mas nem por isso pior. O prato de “porca leiteira” (Colher Torta: melhor copy de pratos do país) eram dois bifes de dois centímetros de altura, que se podiam comer à colher, envolvidos num molho lácteo obsceno. O toque da Midas vinha em forma de picadinho de salsa e picles de cebola, para espalhar por cima e cortar a gordura.

Nos doces, o nível (de prazer e arteriosclerose) subiu ainda mais com o tiramitorto, recriação não-tonta de tiramisù, uma javardice manteigosa e cheia de mascarpone.

Ah, já me esquecia do molho romesco, que terá vindo ao engano ou como cortesia, graças a Deus: típico creme catalão de pimentos picante e frutos secos, outra maravilha.

Por tudo isto, pagou-se uma nota de 50€ e alimentaram-se fartamente três pessoas. Justíssimo. Longa vida ao novo Eurico.

Comida: ****

Embalagem: ****

Conservação: ****

Preço: ****


Ricardo Dias Felner
Escritor e Jornalista

 

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