Um brilho que se perde, um brilho que se recupera

A experimentar

Não que eu seja um verdadeiro otimista por natureza porque não o sou, mas tanta desgraça compilada no dia-a-dia, eventualmente puxa pelo sonho. Noutros tempos, quando havia liberdade e a pandemia eram relatos de “bexigas” nos Capitães da Areia, sonhávamos em vidas gloriosas, empregos de luxo e mulheres/namoradas de sonho.

Lá íamos cantando e rindo, discretos por cada serão, banalizando o nosso direito à reunião, com excessos de mesas fartas e conversas boas. Hoje, e porque o contexto humanitário o exige, estamos deixados ao vento da virtualidade, nas redes sociais e em algumas videochamadas criativas. Não que seja mau, nem que o desespero me tenha atingido, mas também não é bom, é um marasmo de conformidade com os tempos, sem a vivacidade de outros.

Assim, rodeados por este conformismo circunstancial, vamos cantando e rindo sob a reserva do possível, no estrito cumprimento das nossas obrigações sociais, familiares e estudantis – exemplo de futuro! Porém, e porque isto é reflexivo e transversal a todas as formas de vida atuais, o estudo para os exames aparece numa conjuntura de desmotivação e num desalento pela demora da alvorada dos novos tempos.

Não muito distantes, ainda que a memória do trauma recente o faça parecer, estudávamos para os exames de outra forma e, sobretudo, com outra alegria ou ânimo.

Terminei há dias a minha nona época de exames universitários. Isto para um aluno (como eu), que descarta os hábitos de estudo regular por outras vigairadas, é uma experiência psicológica altamente extenuante, onde o cansaço é a tónica, as férias a meta e as pequenas pausas as rotas de escape – só quem as vive intensamente saberá do que falo.

No entanto, e apesar do esforço hercúleo que sempre empenho nestas saisons, tal como a educação canina através de biscoitos, estudava sabendo que me esperava a recompensa dessas pausas. Essa compensação, para lá das notas altas ou dos empregos de sonho, não raras vezes eram as pequenas coisas boas que a temporada de aferição tinha para me oferecer: um fino às quatro da manhã no “77” para esquecer toda matéria decorada, coca-cola ao pôr-de-sol no “Molhe” para restabelecer os índices de cafeína e serotonina, uma bruta francesinha ao jantar para se dizer uns palavrões e ficar absolutamente enfartado ou, até, um muito pouco recomendável BigMac para a ceia ou (às vezes) lanche, preenchendo aquela quota parte de guilty pleasure nuclearmente necessária para tolerar a provação da pressão da avaliação.

Tudo finito! Tudo que era dado adquirido acabou. Não há nem finos, nem coca-colas. Vimos os pequenos prazeres fugirem como água pelas mãos. Nem os frutos secos ou marinheiras, petiscos de estudo contínuo, colmatam estas nossas necessidades. E é nessa mistela de cansaço crónico e de desmotivação latente, onde somos obrigados a nos confrontar com a dureza da vida quando tudo o que mais queríamos era o hedonismo desses pequenos prazeres, que somos obrigados a comer páginas atrás páginas.

Podia eu seguir cantando e rindo, como no antigo hino da mocidade, cada vez menos menino e moço, fazendo disto tudo um sórdido cântico de uma geração privada de muita cantoria e muito riso. A culpa deste desânimo será certamente dos exames que habitualmente nos põem em baixo – e bem – mas atribuo à falta destes pequenos prazeres, a incapacidade de voltarmos à tona.

Foi neste clima lamuriento de um privilegiado, com a lágrima seca de desejo, numa incapacidade de sonhar o grande com a escassez do pequeno, que as nereidas do Minho ouviram as minhas preces.

E assim, num domingo de sol em terras de Vímara Peres e em domínios familiares, estando eu bastante necessitado de algo que me animasse, Tétis pousou no meu prato a cobra do lodo, o ciclóstomo dos deuses: uma bela lampreia preparada à Bordalesa. Escaldada viva, esfolada com perícia, sangrada lentamente e confecionada por largas e largas horas.

Não se pode olhar para o bicho e deve-se evitar conhecer a sua proveniência, caso contrário a probabilidade de enterrarmos os garfos é consideravelmente elevada. No entanto, quando ela, a lampreia, se apresenta na travessa, cortada delicadamente em postas simétricas, ungida de molho do seu próprio sangue, ladeada de pão saloio torrado e crocante, os olhos recuperam o seu brilho humano e o entusiasmo do repasto afasta toda a mecânica da vida. 

Bebemos verde tinto nessa tarde – como dita a regra. Repetimos a dose enquanto na travessa pudessem existir vestígios de civilidade. Devorámos freneticamente esse peixe-cobra deliciosamente feio, num ritual perfeito, de uma mesa impecavelmente bem-posta, onde jaziam algumas belas camélias sobre uma toalha imaculada.

Já no sofá, a esmoer os acontecimentos, vi o reflexo dos meus olhos numa janela e reparei num brilho, um brilho que havia perdido. Senti-me absurdo por tê-lo recuperado num almoço, mas os aficionados sabem bem que uma lampreiada tem precisamente esta capacidade.


José Maria Couceiro da Costa
Estudante

 

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