Pantagruel, filho de Gargantua

A experimentar

O mui renomado Pantagruel, criatura de Rabelais, Rei dos Dipsodos, protagoniza desde 1583 feitos e proezas horríveis e apavorantes para a Gastronomia.

Horríveis porquanto a destroem como conhecimento, que o é em si; apavorantes porquanto dificultam a virtude que lhe convém e facilitam o vício epistemológico e vital que a degenera.

Do mesmo modo que não há a possibilidade da liberdade sem verdade, também não há verdadeiro conhecimento sem virtude e o que ela é de senhorio e liberdade. 

Pantagruel, em resumo, gigante monstruoso, tinha poder para tudo e esse mesmo tudo submetia ao seu domínio, com uma excepção: o seu próprio apetite, o seu princípio vital, o seu vector existencial que era a sua escravidão, a sua constante insatisfação, a impossibilidade da sua felicidade.

Como Midas é incapaz da transcendência, de respeitar uma natureza criada, quer a pessoal a quem impõe a desventura dos seus caprichos que agigantam a sua ansiedade, quer a que lhe é exterior, incapaz que se torna quer para dar quer para receber livremente. A sua imanência tornou-se, como hoje é condição de muitos “Dipsodos”, a sua angústia, solidão, náusea, prisão e desespero.

Sem parcimónia, sem a liberdade e o senhorio de poder agir em função do reconhecimento do que me convém em oportunidade, medida, condicionamento de meios e fins, nunca se conseguirá assegurar a bondade dos actos para o próprio, para os outros e para toda a criação, mas jamais também se conseguirá verdadeiramente possuir seja o que fôr sem ser-se dominado por esse “que fôr”, conseguir receber enquanto acto de quem dá e de quem recebe livremente e, possuir-se a si mesmo, para o caso ou sempre que alguém se dá a si próprio.

Estou a falar de sustentabilidade, do desvelar de uma natureza criada e com sentido, que nos é oferecida para nosso domínio e gozo, que à sua bondade e unidade de sentido se acrescenta a sua infinita beleza e inexorável verdade onde aquietamos todo o nosso mistério e maravilhamos o nosso espírito.

Toda “l’art de la table” está nessa prática reiterada de actos virtuosos para com a natureza, os outros e nós mesmos, que nos consigam, nesse justo meio que é virtude, contemplar toda a criação e o trabalho do homem servido à nossa mesa com o respeito pela imensa dignidade que lhes respeita.


Manuel Guerra Pinheiro
Advogado

 

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