Prefiro picante

A experimentar

Nesta vida em que me tenho aguentado sempre preferi tudo o que me dava pica. Não se estranha então que no que toca a tudo que como, prefira picante.

Nesta preferência posso garantir que sou uma pessoa limpa. Sem nunca perder de vista que uma pessoa suja não é uma pessoa que se suja, mas uma pessoa que se lava. Traduzindo para “gastronomês”, uma pessoa que prefere picante não tem que ser uma pessoa que coma qualquer coisa que seja picante. Mas também não pode ir a correr para a torneira mais próxima lavar a boca e as entranhas á primeira picadela.

Como o Pessoa bem dizia para bebidas que eu não gosto de lembrar, também com o picante, primeiro estranha-se, depois entranha-se. Quem já foi capaz de uma experiência com um picante sério, indiano ou mexicano, sabe bem que não estou a brincar. Daí que lavar as entranhas não se possa estranhar.

Voltando ao tema das coisas picantes que como, a experiência é muito engraçada porque há aquelas que falam connosco e as que nos deixam a falar sozinho .

Claro que as melhores são as que nos acompanham no prazer de degustar por exemplo um creme de marisco. Em que seria um crime que a volúpia do picante nos fizesse esquecer o sabor do marisco em creme. Quando deixamos de saber o que estamos a comer, mais vale levantarmo-nos e partir para outra.

Nenhum gastrónomo que se preze pode deixar que um simples condimento torne complicado saber o que se come. Nem um eventual excesso de álcool pode justificar uma nega destas.

Recordando as que nos deixam a falar sozinho, falemos da minha primeira vez. Foi num restaurante indiano, num ambiente de odores sensuais que certamente imaginam sem dificuldade. Em cima de uma mesa despojada. Quem me serviu não conseguiu disfarçar uma expressão entre o libidinoso e o divertido. De quem já sabia o que eu ia sentir. Sem estar preparado para essas emoções fortes.

Confesso que esta minha primeira vez não foi à bruta, nem uma entrada a pés juntos como se diz na gíria da bola . Foi-me perguntado se queria muito ou pouco picante. Talvez incauto , avancei para o muito. Com pouco cuidado. Quiseram saber se era a primeira vez. Certamente ingénuo, resolvi mentir. Haveria de aprender que é quase mortal cometer o pecado de juntar a soberba à gula.

O que fica desta investida inicial é que sobrevivi. Sempre ouvi dizer que é uma felicidade ter um acidente no primeiro ano de carta desde que não seja fatal. Tive essa sorte e se calhar foi por isso que já acumulei mais de um milhão de quilómetros sem voltar a capotar.

Com estas estórias do picante aconteceu o mesmo. Tendo escapado quase ileso da minha primeira vez, sem traumas nem traumatismos , já nem preciso de usar “capacete” quando embarco em mais uma viagem. Já sei que o seguro morreu de velho, mas para mim recusar uma comida picante é como morrer na praia. A ver o que é bom sem lhe poder tocar.


Manuel Serrão
Empresário

 

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