Vinhos Diogo Lopes | Maktub: O segredo do alquimista

A experimentar

“Ser livre é conseguir flutuar entre a diversidade e a multiplicidade, sem perder a própria identidade.” Dimos Iksilara.

Para quem lê não apenas para fugir da realidade, mas também para tentar compreender essa mesma realidade, “O Alquimista” de Paulo Coelho oferece o melhor desses dois mundos literários. O livro tem aquele “charme bem humorado” da literatura brasileira mas que não se desliga da tensão dramática e da intensidade psicológica de um conto de fadas desencantado. Quase que parece querer segredar-nos ao ouvido como devemos proceder para nos conseguirmos tornar autodidatas, ser imunes a depressões e não deixarmos de acreditar nos nossos sonhos.

Diogo LopesNarra a história de um jovem que se chama Santiago, um simples pastor de ovelhas mas que possui um enorme desejo de viajar pelo mundo e descobrir novos lugares e novas pessoas. Santiago deixa a sua terra natal (na Andaluzia, Espanha) para percorrer o deserto egípcio na procura de um tesouro enterrado por debaixo das pirâmides. Para o encontrar tem de, literalmente, seguir os seus sonhos, munindo-se de algumas ajudas que lhe vão surgindo, através de sinais, durante a sua viagem. Esse é o gatilho que adoça toda a história e que faz, não só com que Santiago passe a ler esses sinais, mas também os consiga interpretar como uma pequena peça do enorme quebra-cabeças que é a vida.

Diogo LopesAo longo da sua jornada fantástica, Santiago conhece uma mulher cigana, um homem que se autodenomina rei (será que é mesmo um rei!!!???), um suposto/convencido alquimista (com o poder de transformar metal em ouro?) e outro/verdadeiro alquimista, mais modesto e que não se vangloria de forma alguma. Cada uma destas personagens vai direcionado Santiago no caminho do seu tesouro.

Diogo LopesDurante boa parte do livro não percebemos que tesouro é este que Santiago tanto anseia encontrar, nem sequer antever se este jovem aventureiro será capaz de superar os inúmeros obstáculos que lhe vão surgindo: becos sem saída, roubos, traições, bruxarias, falsas amizades e até prisões. A partir do meio da narrativa percebemos que Santiago, de algum modo, está a ser capaz de mudar seu próprio destino com as ações/decisões que vai tomando.

Diogo LopesEm seguida, surge a parte mais interessante do livro. Santiago deixa de procurar o tesouro material por debaixo das pirâmides para começar a procurar o tesouro imaterial, aprisionado no seu próprio interior. Amarrado, sempre, a uma linha muito tênue que separa a realidade do espiritual, vai passando por diversos estados de espirito e desconfianças. Até que conhece Fátima, um amor à primeira vista, num enorme oásis.

Diogo LopesEnquanto Santiago vive o seu amor com Fátima, as dúvidas acerca da relação quase esquizofrénica entre realidade e imaginação parecem querer deixar Santiago para entrar na mente dos leitores.  Será que Santiago conseguiu realmente provocar uma tempestade de areia que o ajudou a escapar dos perigos do deserto, ou foi “apenas” coincidência?  Será que ele realmente sentiu o beijo de Fátima ou terá sido apenas o desejo de cumprir uma promessa?

Diogo LopesEste lado místico do livro e a forma de como os acontecimentos descritos podem gerar dezenas de interpretações é o que para mim explica o sucesso deste livro. A minha interpretação vai ser forçosamente diferente da vossa, apesar de termos lido as mesmas palavras.  O personagem principal acaba por refletir exatamente isso, quase como se Paulo Coelho tivesse sido capaz de prever todos os pensamentos que surgiriam na cabeça de todos os leitores, e os transportasse para a cabeça e para a boca de Santiago.

Diogo LopesA experiência que O Alquimista nos transmite tem também muito a ver com o momento em que estamos a ler, se estamos tristes ou contentes, cansados ou despertos, disponíveis ou distraídos. Em função disso, as dúvidas e as certezas que nos vão surgindo serão objectivamente diferentes.

Diogo LopesExuberante, evocativa e cheia de citações impressionantes sobre o ser, a história de Santiago é uma representação real (se bem que por vezes adornada com pós de Prilimpimpim) do poder transformador dos nossos sonhos, reais ou imaginários, das pessoas que compõem as nossas vidas e da importância de ouvirmos o que nos diz o coração. A obra encerra revelando-nos que podemos encontrar a nossa identidade na diversidade e na multiplicidade com que encaramos o mundo e que o nosso verdadeiro tesouro se encontra onde estiver o nosso foco.

Diogo LopesEsse tesouro, quer o de Santiago quer o nosso, não é material, mas tem a ver com a viagem em si, nas descobertas feitas, na sabedoria adquirida e na heterogeneidade promovida. Viagens, descobertas, sabedoria, identidade assente na heterogeneidade e o acreditar em sonhos têm tudo a ver com os vinhos do Diogo Lopes, um verdadeiro alquimista da diversidade e a multiplicidade, sem perder a própria identidade.

Diogo LopesNo ano passado tive o prazer de acompanhar quase todos os projetos que o Diogo tem (acabei por lhe atribuir o “prémio” “enólogo revelação” . Faz e ajuda a fazer vinhos com uma relação qualidade/preço, que chega quase a ser obscena. Após viagens pelas principais regiões vitivinícolas portuguesas e por Napa Valley, na Califórnia, acabaria por começar a trabalhar em 2005, no Alentejo, ao lado de uma grande referência do vinho em Portugal, hoje um grande amigo: Anselmo Mendes.

Diogo LopesVindima após vindima, surgiram novos desafios e novos projectos. Entre o Alentejo, a Região dos Vinhos Verdes, os Açores ou a Região de Lisboa. Experiências essas que fazem que o seu maktub seja bastante risonho e promissor.  Hoje vou falar-vos de três vinhos com o seu cunho pessoal, o Adega Mãe Terroir Branco 2016, o Quinta do Convento Tinto 2018 e o Kranemann Tawny 20 anos, que demonstram essa diversidade baseada na excelência e identidade.

Diogo LopesAdega Mãe Terroir Branco 2016 (49.00 €, 93 pts.) é um vinho impressionante de quão delicado e intrigante que é. De cor amarela-palha basta cristalina e límpida, quase dourada, exibe uma forte mineralidade (pedra de isqueiro, granito molhado, quase salina), pêra, toranja,  fumo, avelã e uma tosta super bonita e muito bem integrada.  Na boca é complexo, crocante, cheio, irreverente, vibrante e com as “unhas bem afiadas”. Acompanhou magistralmente uns Chocos fritos, grelos e batata a murro.

Diogo LopesPor sua vez o Quinta do Convento Tinto 2018 (11.90 €, 88pts.), de cor vermelha-rubi tem um nariz carregado de frutos do bosque, mirtilos, amoras pretas, esteva, pimenta preta e uma tosta tão ténue quanto bem integrada. O palato é equilibrado, carnudo, mineral (xisto partido), fresco e com taninos arredondados.

Diogo LopesPara acompanhar o Falso pudim de aveia, banana e frutos secos surgiu o melhor 20 anos que provei até hoje. Quem mo enviou disse-me que era um “grande, grande vinho”, e não poderia ter sido mais certeiro. De cor âmbar com nuances rubi-ferrosas o Kranemann Tawny 20 anos (69.00 €, 94 pts.) e de grande complexidade aromática (maçapão, avelãs, noz, amêndoa torrada, figos secos, resina, noz-moscada e pimenta da Jamaica), exibe um palato intenso, untuoso, fresco, equilibrado e muito persistente (o copo vazio já há umas horas serviu de ambientador ;)). Tem uma ligeira secura e vegetalidade que me apaixonou.

Diogo LopesMaktub é uma expressão que Paulo Coelho discute n’O Alquimista.  Tem origem árabe e está associada a uma representação de algo que tinha que acontecer, que já estava escrito, quase como uma sina ou destino. Penso que no caso do Diogo esse makbut tem forçosamente de estar relacionado com a liberdade, identidade, diversidade e qualidade que ele aprisiona dentro de cada garrafa.

Chocos fritos, grelos e batata a murro:

-Depois de lavarem bem os chocos, cortem-nos com o tamanho aproximado de um dedo indicador;

-Fritem-nos brevemente e conjuntamente com lascas de alho, temperando com sal e pimenta;

-Levem-nos forno durante 15 minutos com umas folhas de louro e batatas;

-Cozam os grelos, com o tacho destapado, em água a ferver temperada com sal. Depois escorram-nos muito bem;

-Esmague os dentes de alho e deixe-nos alourar numa frigideira com o azeite. Introduzam os grelos bem escorridos e salteiem-nos durante 5 minutos. Acrescentem no final um pouco de queijo parmesão.

Falso pudim de aveia, banana e frutos secos:

-Pré-aqueçam o forno a 180ºC;

-Numa taça misturarem a aveia (2 chávenas), as sementes de chia e sésamo (meia chávena), os frutos secos (avelãs, noz, amêndoa) um pouco de canela e o fermento (uma colher de chá). Noutra taça, juntem o leite (duas chávenas de leite magro), os ovos (2), e o mel (uma colher de sopa) e mexam bem;

-Num pirex misturem metade de mistura de frutos vermelhos (uma chávena) e uma banana às rodelas. Por cima coloquem a mistura seca, em seguida vertam a mistura húmida e por fim coloquem a restante fruta (uma banana e os restantes frutos vermelhos). Levem ao forno por aproximadamente 40 minutos ou até a aveia absorver o líquido;

-Sirvam com framboesas e um pouco de caramelo.

O artigo foi publicado originalmente em No meu Palato.

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