Os Vinhos que me Marcaram

A experimentar

Em mais de 30 anos de trabalho como enólogo, tenho a sorte de já ter provado muitos e bons vinhos, alguns excecionais. Falo não só dos vinhos da minha casa, a Sogrape, mas também de outros, portugueses e estrangeiros. Vinhos que me inspiram a querer fazer melhor. 

(Confesso que nesta lista me falta ainda o Romanè Conti mas, enfim, isso é algo que tenho de resolver.)

Mais ou menos conhecidos, todos eles me marcaram de uma maneira ou de outra e me deixaram boas recordações. Não só pela sua qualidade e características, mas também pelos momentos que proporcionaram. Para mim, beber um grande vinho não se resume unicamente ao acto de o descobrir e saborear, mas tem que ver com todo o ambiente que se cria à sua volta: a expectativa, o prazer e a alegria do momento. 

Alguns, muitos, foram marcantes. Os grandes vinhos têm esse poder. Essa magia. E não falo apenas dos vinhos mais badalados. Muitas vezes são as circunstâncias que nos fazem gravar o vinho. 

Dos vários que tenho na memória, recordo com nostalgia, particularmente, dois deles. Para além de simbolizarem experiências absolutamente incríveis, acabaram por ter um impacto em mim tempos mais tarde.

O primeiro sucedeu há já mais de 20 anos, em Dezembro de 1997. Estava em Bordéus com o José Maria Soares Franco, o Manuel Vieira e o Miguel Pessanha para frequentar um curso sobre envelhecimento de vinho em madeira. A formação teve a duração de uma semana, mas recordo-me de ter sido muito interessante. Em Portugal vivíamos ainda os primórdios da utilização das barricas.

Como em qualquer viagem de enólogos a uma região vitivinícola, naturalmente, aproveitámos para provar o maior número de vinhos possível e desfrutar da gastronomia francesa.

Lembro-me que partimos de Bordéus debaixo de um nevão intenso em direção a Espanha, mais precisamente a Santo Domingo de Silos, uma localidade próxima de Burgos, onde existe um mosteiro de monge cistercienses. Íamos com a ideia de ouvir os cânticos gregorianos (programa que recomendo vivamente).

Chegámos ao nosso destino com o mesmo frio intenso e mesmo a tempo de escutar as “Completas”. Eram 10.00 em ponto. Terminado o concerto, voltámos para o hotel, um alojamento de montanha pequeno e acolhedor, e seguimos diretamente para o comedor. A hora já ia adiantada e a fome apertava.

Não me recordo com precisão da ementa, que foi certamente substancial, mas do vinho sim: um Lan à Mano. Fiquei confortado e com a alma revigorada. Era a primeira vez que o provava e a sua complexidade e elegância estão ainda na minha memória.

Foi o meu primeiro contacto com este vinho. Por pura coincidência, 15 anos mais tarde, ele viria a integrar o portefólio da Sogrape, quando esta adquiriu a Bodegas Lan, produtora precisamente do Lan à Mano.

Quanto ao segundo vinho, a história é diferente. Sempre fui um apaixonado pela caça e tenho uma fortíssima ligação aos Açores. Quando se proporcionou ir caçar galinholas aos Açores em 2014, não hesitei e lá parti com mais dois amigos, o António Sousa-Cardoso e o Miguel Monteiro. Devo dizer que a caça às galinholas nesse ano não correu particularmente bem, mas felizmente tivemos uma abertura às codornizes que nos recompensou largamente. Desde então, a ida aos Açores passou a ser um roteiro no meu calendário cinegético.

Acontece que o nosso companheiro de caça nos Açores, o José Pedro Pacheco (que, para além de bom amigo, é um extraordinário caçador de galinholas) é colaborador do agente da Sogrape na Ilha Terceira, motivo pelo qual fazer jantares vínicos aproveitando estas deslocações às ilhas surgiu naturalmente.

Como frequentemente sucede, a primeira vez de qualquer coisa fica registada na memória— e este primeiro jantar não fugiu à regra. Por várias razões. Logo a começar pelo restaurante: o QB, em Angra do Heroísmo, onde pontifica o extraordinário chef Paulo Lourenço, que sempre nos delicia e surpreende com os seus pratos. Para além disso, o restaurante estava cheio de gente simpática, tendo-se vivido um ambiente leve e agradável.

Mas o ponto alto da noite foi, passe a imodéstia, o Casa Ferreirinha Quinta da Leda 2008 em garrafa Magnum. Simplesmente divinal. Ainda hoje relembro a sua elegância, estrutura e complexidade e, mais importante do que tudo, a forma como o ano de 2008 brilhou e provou o seu valor. 

De volta ao continente, foi muito fácil comunicar a decisão sobre o “Douro Especial 2008” (nome interno antes de declararmos um Reserva Especial ou Barca-Velha), que se revelou um belíssimo Barca-Velha.

E já agora, devo dizer que, apesar das poucas horas dormidas e de estar ainda a digerir o jantar, o dia de caça seguinte foi muito bem-sucedido.


Luís Sottomayor
Enólogo

 

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