Tapada de coelheiros garrafeira – Prova vertical – 1996 a 2013

A experimentar

Não, nem todo o Alentejo é igual. Basta, aliás, recordarmos tratar-se da região portuguesa com maior diversidade de solos. E, sim, os bons vinhos alentejanos conseguem evoluir muito bem, como ficou demonstrado nesta prova vertical do Tapada de Coelheiros Garrafeira, um ícone que em edições como 1996 parece querer atingir a imortalidade.

Há parcelas de vinhas que merecem estátuas. Por muito que possam ser analisadas à exaustão parecem reservar sempre algo de misterioso, de inatingível à compreensão do conhecimento atual. A parcela Leonilde, vinha de sequeiro (algo cada vez mais raro), plantada em 1981, na Herdade de Coelheiros, é um desses exemplos.

Igrejinha, Arraiolos, Norte do Alentejo. O chão é granítico, embora a argila esteja bem evidente e a textura seja arenosa, o que permite retenção suplementar de humidade. A fertilidade é diminuta, a altitude ronda os 300 metros, a orientação da vinha é noroeste-sudoeste, a densidade é de 3.333 plantas por hectare, originando uma produção média de três toneladas por hectare.

Duas castas, Aragonez (Tinta Roriz) e Cabernet Sauvignon, constituem o encepamento que está na base dos Tapada de Coelheiros Garrafeira, o topo da Herdade de Coelheiros. António Saramago, durante 25 anos o enólogo de Coelheiros, inspirou-se nos Vega Sicília, nome maior da espanhola Ribera del Duero, quando o começou a arquitetar. A ideia passava por aproveitar a frescura do Aragonez, combinando-a com a textura e o músculo do Cabernet Sauvignon. Com ligeiras variações nos anos em que tem sido produzido, o blend do Garrafeira anda quase sempre pelos 65% de Aragonez e 35% de Cabernet. No estágio, de 18 meses, tem sido privilegiada barrica nova de carvalho francês.
Luis Patrão, enólogo de Coelheiros desde 2016, explica que a vinha manifesta algumas dificuldades em alcançar maturações plenas nos anos mais tórridos, embora se apresente muito consistentes e resiliente a fenómenos extremos. Não deixa de ser significativo, aliás, que o novo Garrafeira seja o 2013, um ano muito quente.

 

O enólogo mantém o lagar como elemento importante na obtenção do vinho, embora esteja a optar por uma técnica mais lenta e macia – mantendo a manta submersa, enquanto António Saramago apostava mais na pisa e na maceração. O primeiro Garrafeira da autoria de Luis Patrão será de 2018, ano em que admite ter finalmente conseguido perceber os equilíbrios e humores da herdade – “É preciso tempo para entender Coelheiros”, diz-nos.
Desta vez não estivemos em Igrejinha. Sentámo-nos à mesa do Epur, estrela Michelin de Lisboa, onde pontifícia o chefe francês Vincent Farges.

Transformação por convicção

Coelheiros é um lugar especial, que extravasa em muito a produção de vinho. Afinal, falamos de um extenso património de 800 hectares, dos quais 600ha de montado, 40ha de nogueiras e 50ha de vinhedos. A biodiversidade entra pelos olhos com a rapidez com que correm veados, gamos e lebres, sem esquecer a pasmaceira com que pastam ovelhas ou saltitam coelhos, isto para não referirmos a panóplia de passarada que ora voa, ora pousa nos arvoredos.
Foi tudo isto que apaixonou Alberto Weisser e Gabriela Mascioli, o casal de proprietários que assumiu a herdade em 2015, depois de visitar outras possibilidades de investimento.
“O nosso Alentejo é muito mais ondulado, mais fresco, mais verde”, insiste Alberto. “Sinto que Coelheiros é cada vez mais um terroir especial”, enfatiza.

Aos poucos, a revolução na herdade vai ficando bem afirmada. A agricultura biológica, a preocupação com a preservação da biodiversidade e a gestão inteligente dos recursos naturais disponíveis são um mote diário.
Alberto Weisser, que tem carreira internacional no setor financeiro, admite que “fazer vinho é algo muito delicado, muito difícil para alguém com background das commodoties”.  Garante, no entanto, que está em Coelheiros “com carinho, paixão e foco na qualidade”.
Após esta prova vertical do Garrafeira, do primeiro 1996 ao novo 2013, questionámo-lo acerca da forma com que apresenta Coelheiros a quem não conhece nem Portugal nem o Alentejo: “Se for um americano, digo-lhe para pensar em Napa Valley. No caso de alguns europeus, digo-lhes que aqui é melhor que a Toscana”.

O melhor será sempre vítima de subjetividade no universo do vinho, mas uma coisa é certa – os Coelheiros Garrafeira têm o carácter dos grandes.

OS 10 MAGNÍFICOS

Da primeira edição, um 1996 de excelente nível, ao recém-lançado 2013. A Revista de Vinhos apresenta uma rara prova vertical de um dos vinhos icónicos do Alentejo, que mostra que os bons exemplos da região sabem evoluir.

18,5
Tapada de Coelheiros Garrafeira 1996

Regional Alentejano / Tinto / Herdade dos Coelheiros
O início. Conquistou o 1º Prémio do concurso “Os Melhores Vinhos do Alentejo”. Granada. Nariz de trufa, azeitona preta, mato, ligeira caça, alguns balsâmicos e especiaria. Tanino firme mas muito elegante, boa acidez em fundo, estrutura sedosa. O final é incrivelmente fresco, profundo e persistente. Está bem vivo, mostra uma evolução nobre que reúne todas as condições para prosseguir com garbo.
Consumo: 2021-2025

Continue a ler o artigo em Revista de Vinhos.

Últimas