Seis mitos sobre vinho e seis sugestões

A experimentar

O tempo da adversidade puxa pelo coração dos mais intrépidos e para os criadores de vinhos isso é também uma fonte de inspiração. É por isso altura também de substituir o previamente estabelecido pelo inteiramente novo. Alinhámos seis dos muitos exemplos que discretamente foram colocados no mercado e que não só renunciam ao dogma como são passos em frente. Boas provas!

Mito #1
Um bom Alvarinho é caro. Os lugares de excelência da casta Alvarinho estão na região de Monção e Melgaço, nos cocurutos de Portugal fronteiros à Galiza. O prodigioso vale do Rio Minho, cheio de nuances e segredos ainda por desbravar criou este enclave que transcende a divisão administrativa que tradicionalmente existe entre Monção e Melgaço. A união faz mesmo a força e com o incremento de produção veio também a disponibilização de títulos que representam boas relações preço-qualidade sem prejuízo desta última. É o caso do vinho Encosta da Capela de José Manuel Fernandes que lhe propomos.


Mito #2
Há poucos brancos de excelência no Douro. O grande vale vinhateiro, que também conhecemos como ilha de xisto, foi delimitado principalmente para definir as vinhas de vinho do Porto. A capacidade de conservar o calor e de o comunicar às plantas, sobretudo nas cotas mais baixas onde o calor chega a ser insuportável vocaciona esse pedaço de território para a produção de vinho do Porto. A orlar o xisto há solos magníficos de transição para o granito e a altitude tem revelado locais fantásticos, com vinha velha muitas vezes pré-filoxérica. Prove o branco excepcional da Boal Estates que lhe propomos e vai perceber a riqueza que ali está.


Mito #3
Trás-os-Montes não tem clássicos. Uma afirmação fácil de rebater, basta olhar para o fabuloso projecto de Maria Antónia Pinto de Azevedo Mascarenhas perto de Macedo de Cavaleiros e que dá pelo nome de Valle Pradinhos. A ousadia está no ADN da casa, com vinhas velhas plantadas em solos pedregosos e pobres, mas com orientação para o mundo. A visão invulgar da proprietária e empresária tem-nos dado grandes alegrias, todos os seus vinhos são vinhos de guarda e melhoram muito com o tempo. Demonstração disso é o Reserva tinto recentemente lançado, elevada qualidade a um preço módico.


Mito # 4
Não há mercado para os brancos de Trás-os-Montes. Ainda tudo está no começo para os produtores transmontanos e os solos de transição xisto-granito são uma enorme inspiração. A mineralidade dos vinhos brancos que estão a surgir no mercado, juntamente com os preços francamente acessíveis que se pede, vão dar cartas e povoar as mesas marítimas e marisqueiras de todo o país, do Minho ao Algarve. Escolhemos o Grande Reserva branco da Quinta Valle Madruga, perto de Valpaços para mostrar a qualidade e potencial do território que urge descobrir e beber.


Mito #5
O Dão precisa de se modernizar. Como em todas as outras regiões vinhateiras do país, há produtores clássicos e produtores vanguardistas, nem sempre os circuitos comerciais exprimem a realidade do que se passa no terreno. E mesmo a colossal Sogrape dá mostras do carinho que tem pelo Dão, como demonstrado no Parcela 45 que integra o elenco de vinhos proposto. Eu próprio estive na Quinta dos Carvalhais em 2017 poucos dias depois das chamas dizimarem sem piedade um talhão de Alfrocheiro que ali havia. Este vinho foi feito poucos dias antes do incêndio, a vinha foi logo replantada. Mais patrimonial e enérgico é impossível.


Mito #6
Os vinhos de talha têm pouca frescura. Dos baixos de Vila de Frades, a ACV Vinhos de Talha está a sair-se com vinhos muito finos e que recondicionam o perfil das omnipresentes talhas vinhateiras. O 1×1 Mangancha que seleccionámos é um vinho de talha que contempla metade de Aragonez e outra metade de Trincadeira e proporciona uma experiência de frescura e elegância que merecemos e procuramos. Caminhos de descoberta não faltam e não há enólogo, lavrador nem empresário da cena nacional do vinho que não esteja de mangas arregaçadas a criar novas propostas. Que estes seis sejam porta para novos trilhos, é o nosso desejo.


 

# Encosta da Capela Alvarinho Reserva Monção & Melgaço Verde branco 2019 (13.5%) | José Manuel Fernandes
Classificação Evasões: 16,5
100% alvarinho. Amarelo aberto, laivos esverdeados. Aromas florais e cítricos. Boca a mostrar notas de dióspiro e chocolate branco, conjunto agradável. Final médio e copioso, sem perder o equilíbrio. Excelente para um robalo assado com algas, também irá bem com arroz de marisco bem condimentado. Preço: 9 euros

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