Quando o templo vai a nossa casa

A experimentar

Crítica de Take Away

Solar dos Presuntos

****

Tipo de cozinha: Tradicional Portuguesa

Tempo: Hora marcada

Entrega: Serviço próprio

Taxa de transporte: 8,5€

Durante muitos anos não tive dinheiro para ir ao Solar dos Presuntos. Limitava-me a passar à porta e a estudar o menu. Um dia, ao almoço, entrei. Continuava sem dinheiro, mas mesmo assim entrei.

Fiquei meia hora a olhar para a carta, procurando uma solução para aquela equação: as sobras do ordenado mal davam para cobrir um prato principal. Era quase tudo acima dos 25 euros. Menos o pernil.

Pernil tinha sido o meu jantar na véspera e haveria de ser o meu jantar nesse dia. Orgulhava-me do meu pernil, feito com marinada de louro e vinho e colorau.

Entalado pela contabilidade, quando o empregado se abeirou para o pedido, escolhi a pata do porco. “E vai querer uma entradinha?” Não, obrigado. “Trago-lhe a carta de vinhos?” Não, obrigado.

Foi o melhor pernil de que tenho memória, servido com umas batatinhas estupendas. Quando cheguei a casa, agarrei no meu e fiz empadão.

Desta vez, não pedi pernil. Ele continua na carta, mas eu desprezei-o com a altivez de um euromilionário perante um prato de tremoços. Venha o polvo à galega, venha o cabrito assado, venha a sopa rica de peixe. Haja fartura, que a morte está certa e a vacina não se sabe.

À hora marcada, chegou tudo quente a casa, mas não tão quente que não precisasse de mais calor. Entaladela no cabrito, fervura breve na sopa e finalização do polvo.

Começou-se pelo molusco, embalado em vácuo já cozido, com pimentão servido à parte e azeite maduro, desse caseiro com notas ligeiras a tulha. Experimentei também com um bom azeite mais verde que tinha em casa, mas curiosamente gostei mais do que vinha na entrega, ainda que, supostamente, com defeito.

Textura firme e tenra, corte diagonal dos tentáculos, indicações certeiras para a finalização, que ganhou com umas lascas de flor de sal.

Seguiu-se a sopa piscícola, densa, massinhas e pedaços de peixe grande (corvina ou garoupa ou ambos), camarões médios e rijos. E logo saiu do forno o cabrito, pequenino e suculento, sem excesso de tempero, equilibrado de partes carnudas e ossudas, gordura e chicha.

Piores os acompanhamentos, batatinha redonda nova (fora de época e desinteressante), mais um arroz colorido com pó de açafrão (borrachoso e dispensável).

O Solar dos Presuntos é uma instituição. Ainda hoje olho para o restaurante lisboeta como um templo da gastronomia tradicional portuguesa. Nestes tempos, é bom saber que podemos contar com ele em casa. Sem ter de repetir o pernil.

Por esta refeição, que alimentou dois adultos famintos, pagaram-se 78,50€, já com taxa de entrega (8,5€).

Comida: ****

Embalagem: ****

Conservação: ****

Preço: ***


Ricardo Dias Felner
Escritor e Jornalista

 

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