O Pernil com Grão

A experimentar

Digam lá que não estavam à espera desta reaparição? E também que o regresso fosse com um casal improvável. Verdade é que vemos pouco o pernil e o grão juntos, principalmente quando reservamos o pernil para a sua forma mais babosa que é, sem duvida ou rebuço, uma boa e lenta assadura.

Como fazer? Muito mais simples de que mudar uma fralda!

Desculpem, mas ainda agora tenho pesadelos com as fraldas que mudei ao meu filho Tuna, que hoje vale mais de cem quilos e de 1,90 m de altura. O marmanjo, já em bebé, do que verdadeiramente gostava era de uma boa feijoada ou de um “arroz peto”, como ele chamava ao que não era mais que uma baita de uma cabidela, um “pica no chão”, daqueles rijos, mesmo! Agora imaginem posto em fraldas, o permanente desarranjo intestinal do miúdo!

Sinto que isto não está a correr muito bem.

Vou reformular, fazer este pernil com grão é muito mais simples do que andar de bicicleta!

Ora vejam: aviem-se com um pernil fresco ou fumado. Se fumado, ponham umas horas em água fria. Só lhe fará bem. Sim, podem pôr um limão, aos quartos, na água, para limpar de gorduras.

Uma boa assadeira. Daquelas de barro vidrado – de preferência já com cama, toda preta por baixo. Um bom azeite, fundamental um bom azeite. Eu tenho usado um azeite divino do meu querido amigo Carloto Magalhães. Em tudo o que é da terra e o Carloto põe a sua mão abençoada, sai qualquer coisa dos Deuses. É da Muxagata, onde ele faz esse grande vinho que é o Palato.

Batata boa de semente para assar, partida aos gomos que é a forma mais amável para uma boa assadura. Untar o pernil como pimentão, piri-piri ou malagueta esmagada. Esmagar nas mãos uma folha de louro e salpicar. Cortar uma cebola grande às rodelas finas, fazer cama no azeite. Aconchegar o pernil bem seco e as batatas. Salpicar com sal (pouco). Voltar a regar com azeite. Assadeira tapada com papel de alumínio. Forno a 160-180 cerca de 80 minutos.

E onde está o grão, perguntarão? E agora vem a história:

Gostamos muito das praias a Norte e, por isso, depois de apanhar sol e dar mergulhos no Algarve, mergulhamos no vento e no gelo nortenho, com destemido prazer. Sempre que chegávamos a Moledo (ou quase sempre) marcámos encontro no Retiro da Ponte. Um restaurante muito bonito em Vilar de Mouros, numa casa debruçada sobre um rio alegre e murmurante, que ali se cruza com uma ponte romana e um adro com uma igreja antiga. Para perceberem o contexto paisagístico, sentimo-nos transportados para aquele ambiente mágico que vemos nos filmes medievais.

Tudo é bonito, arrumado e aprazível.

A varanda debruçada sobre o rio é fresca e cheira a lavado. Sentamo-nos e vem um pão e uma broa ótimos, e uma pasta de caranguejo macia e tentadora. E depois, primeira novidade, uns pasteis de chaves de estalo. Mas a marca da casa é mesmo o pernil. E, por isso, venha o bicho!

E agora vejam só — o pernil vem com batata assada, grelos, feijão e ainda… arroz de grão. Achava aquilo a hipérbole do excesso, o mais que o mais, o mais que for! Tanto hidrato junto, nunca tinha visto!

A verdade é que começávamos numa ponta e… oh, só acabávamos no fim!! 

De tantas vezes lá irmos, nunca mais comemos pernil de outra maneira.

Hoje, fiz um só para mim e para a minha Santa Mulher que nunca, desde o nosso namoro, teve que levar comigo tanto tempo. Merecia, portanto!

O pernil mal cabia na assadeira. A garrafa de Riso Reserva estava à espreita.

Bom, como diziam languidamente os meus irmãos Miguel e a Mulher Teresa, depois de terem destroçado uma famosa lampreia que devia ter sobrado para nós: Então a Lampreia? Dizia eu e a minha Teresa, afogueados pelo atrasado.

Eles, encostados ternamente um no outro, com as faces coradas e luzidias, atiraram corrido, num murmúrio — Comêmo-la!

Pois, foi o que fizemos hoje ao famoso pernil com arroz de grão!

O artigo foi publicado originalmente em De Babette.

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