Comefinamento: Tasquinha do Lagarto

A experimentar

Todas as semanas, durante o confinamento, experimentamos um serviço de take-away ou entrega ao domicílio.

Os diminutivos são uma das grandes invenções portuguesas. Servem-nos para tudo e para o seu contrário – sobretudo à mesa. Um diminutivo é capaz de domesticar uma contrariedade (“vai demorar um bocadinho”), almofadar uma má notícia (“aqui tem a continha”), ou até prevenir queimaduras de segundo grau (“ainda está um bocadinho quente”). A guarnição de um sufixozinho tem também o dom de subverter qualquer noção de escala e fazer uma alarvidade passar por uma délicatesse. Teria uns 15 anos quando pela primeira vez li um texto do Miguel Esteves Cardoso a teorizar sobre a prodigiosa relação entre tachos e sufixos. Explicava ele que “um ‘arrozinho’ deixa de ser um ‘mero arroz’ só quando a capacidade da panela, e o corpo de baile de lagostins, ultrapassa a lotação média do São Luiz”.

Reencontro-me com esse texto, “Almoço”, folheando As 100 Melhores Crónicas (livrinho de 364 páginas), no exacto dia em que encomendo o jantar na Tasquinha do Lagarto. Sorrio da coincidência que me veio dar uma ajudinha para arrancar a prosa. E depois penso que há três décadas que o cânone de MEC ajuda gerações inteiras a escrever, incluindo muita gente que nem se dá conta disso.

Tasquinha do Lagarto

Tasquinha é, em si, um belo exemplar de diminutivo. Em tempo de paz, o sufixo acomoda uma sala de 90 lugares sempre ao barrote e faz as honras da casa: sim, tem qualquer coisa de tasca, na cozinha de tradição popular e nos decibéis do convívio, mas os guardanapos são de pano (amorosos, com um lagartinho bordado). De resto, a Tasquinha diz-se do Lagarto por razões óbvias (a última vez que ali almocei, o Paulinho, roupeiro do Sporting, almoçava ao lado) e as origens estão no Minho, terra de mesa farta que já traz um diminutivo embutido no nome.

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