A alimentação dos portugueses: Tendências 2021

A experimentar

No último ano assistimos a mudanças no comportamento alimentar dos portugueses, com alteração dos contextos de aquisição, confeção e ingestão de alimentos. A COVID-19 veio, claramente, contribuir para a alteração nos hábitos de uma parte significativa da população. Se, por um lado, uns optaram por uma alimentação mais saudável, por outro lado, verificámos que outros sofreram com a escassez de recursos. Parece evidente que, se os portugueses comiam mal antes desta crise pandémica, muitos podem sair dela a comer pior.

Sabíamos, já antes da chegada da COVID-19, que os hábitos alimentares inadequados estavam no top 5 dos fatores que mais contribuem para a perda de anos de vida saudável pelos portugueses. O elevado consumo de carne vermelha, o baixo consumo de cereais integrais e o excesso de sal constituíam os principais erros a apontar à alimentação nacional.

Sabemos também que as restrições resultantes da pandemia tornaram o acesso aos alimentos e aos rendimentos mais difícil para as famílias mais vulneráveis e também reconhecemos que os erros alimentares seguem uma gradação social potenciando danos na saúde dos mais desfavorecidos. Logo podemos assegurar, com firmeza, que com esta crise pandémica estão a agravar-se as desigualdades no acesso a uma alimentação saudável.

O inquérito da Direção-Geral da Saúde, publicado em maio de 2020, confirma esta tese, concluindo que um em cada três portugueses se encontrava em risco de insegurança alimentar durante o primeiro confinamento que teve lugar de março a maio do ano passado, ou seja, durante esse período tiveram dificuldade de fornecer alimentos suficientes a toda a família devido à falta de recursos financeiros. Valor bastante superior ao que tínhamos antes da pandemia, que atingia 10% das famílias em Portugal. O que já de si era preocupante.

Iniciámos o ano 2021, com um novo confinamento, e podemos já adivinhar que a situação da insegurança alimentar pode piorar de forma significativa com o aumento da pobreza alimentar resultante da pandemia.

Mas, paradoxalmente, a pandemia tem impulsionado mudanças positivas no comportamento alimentar de muitos outros portugueses. Sendo a alimentação equilibrada fundamental para assegurar uma melhor recuperação em situação de doença e, cumulativamente a este facto, existindo evidência científica de que os indivíduos com doenças crónicas, como é o caso da obesidade, são mais afetados pela COVID-19 e apresentam maior mortalidade, levou a que muitos adotassem uma alimentação mais cuidada.

Daí que a relação da alimentação com a saúde tenha ficado mais preponderante, neste período pandémico, e que a alimentação saudável tenha obtido um mais destaque neste novo cenário.

Neste sentido, a COVID-19 obrigou a se equacionar a transformação da alimentação atual e acaba por acelerar algumas tendências como:

  • O crescimento de adeptos de uma alimentação com mais produtos de origem vegetal;
  • A valorização de produtos com reduzido impacto no meio ambiente, nomeadamente a seleção dos produtos locais com cadeias curtas de abastecimento, a preferência por embalagens sustentáveis e a verificação de selos de reciclagem;
  • A preferência por alimentos e bebidas que oferecem a sensação de bem-estar mental e emocional;
  • A propensão por opções de conveniência, que economizem tempo, mas que respondam à definição de confiança, qualidade e essencialidade;
  • A frugalidade, usando os alimentos na justa medida e evitando o desperdício.

Estas tendências vão de encontro a um conceito alimentar que nos é culturalmente muito próximo: a Dieta Mediterrânica. Aproveitemos para a reabilitar.


Alexandra Bento
Bastonária da Ordem dos Nutricionistas

 

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