Prefiro desconfinar

A experimentar

Assinalando convenientemente este primeiro dia do novo confinamento geral, proclamo solenemente que prefiro desconfinar. Ao contrário do que é o entendimento geral para gente desconfiada, nestes tempos de pandemia, uma lampreia desconfinada é uma luz ao fundo do túnel. Digestivo.

Embalado pelo meu primeiro naco de prosa em que declarei que  “Prefiro os brancos “ atrevo-me agora a revelar que prefiro desconfinar. Esta vida de marinheiro (em que também navegamos de site em site) é feita de escolhas. Mesmo aqueles que detestam ter de escolher, o que não é claramente o meu caso, são obrigados pela vida que passa a fazer tantas escolhas que já deviam ter mudado de feitio. Não ser capaz de decidir é defeito, mas não gostar de escolher é feitio.

Preferir é uma forma delicada de escolher. Uma escolha das boas significa optar entre, pelo menos, duas decisões possíveis, implicando que uma (ou mais) será preterida. Descartada. Desprezada. Seguindo a espuma dos dias de hoje, confinada. Por tempo indeterminado.

Preferir continua a ser uma atitude, mas muito mais inclusiva, como hoje está na moda. Existe uma diferença notória entre quem não é escolhido e quem não é preferido. Aproveitando a deixa da moda quando revelo a minha preferência pela Sara Sampaio não estou a descartar nenhuma outra modelo. Já se a pudesse escolher…. outro galo cantaria. 

Quando desembarco no Gaveto, nestes inícios do ano, e me põem perante o dilema de ter que escolher entre o arroz de lampreia ou a lampreia à bordaleza, a minha escolha pela bordalesa confina o arroz (e essa putativa lampreia) durante o tempo que eu levar a lá voltar. No mínimo. Porque no máximo ela e ele ficarão confinados até que eu escolha lá voltar e não repita a escolha da bordalesa. Começam a ser muitas escolhas para uma escolha só.

Se o título fosse absoluto no sentido de que prefiro desconfinar sempre, talvez a lampreia do arroz tivesse vida mais fácil. Apesar da contradição evidente porque neste caso particular lampreia desconfinada é lampreia morta. É por isso que é bom morrer de amor por elas, porque são elas que vão desta para melhor. Sempre no nosso ponto de vista. 

Quando digo que prefiro desconfinar e meto a lampreia ao barulho não tem a ver com a escolha entre a maneira como ela se serve, mas sim com a preferência com que eu escolho servir-me dela. 

Quando começou a minha estória de amor com elas gostava de as comer de qualquer maneira. Mais jovens e menos jovens, mais rijas  ou mais flácidas, mais avinagradas e mais picantes. As esquisitices só vieram com a idade. A maturidade prova-se também assim. 

Farto de acordar com más memórias de uma noite agitada pelos piores motivos decidi mudar a maneira como as comia. Passei a só gostar delas descascadas, em carne viva. No Gaveto já conhecem a receita. Deitam-nas num prato mais pequeno estrategicamente colocado ao lado da cama em que lhes dou o arroz com algum molho e esfolo-as sem misericórdia. 

Ainda ninguém sonhava com a covid e já eu só comia lampreia assim desconfinada, em nome de uma digestão muito mais confinada no tempo e no modo. 


Manuel Serrão
Empresário

 

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