Rumo às mecas

A experimentar

Adoro contar histórias. Tento o fazer, com mais ou menos rigor, nas linhas que dedico a este recente projeto. Os leitores, tirando os que me vão seguindo pela selva cibernáutica, não conhecem este jovem imberbe. Assim, espero que com estas passagens consiga abrir um pedaço da porta que encerra o que chamamos de reserva da intimidade.

Logo, se na última crónica falei de jantares, transparecendo as paredes do meu lar, hoje, e a propósito dessa reserva de intimidade, falarei de algumas mecas subversivas que permitem-na ser mantida, nesses recônditos tempos das madrugadas, que preenchem  os prazeres noctívagos da minha cidade: o Porto.

Eu estive (apesar de ainda se poder dizer que materialmente estou) envolvido nas mais diversas atividades partidárias, políticas e associativas. No fundo, como muito bem podem atestar os meus compagnons de route, sou um conspirador nato. Aliás, dizem-me que, caso tivesse nascido noutros tempos, quem seguraria o punhal contra Andeiro ou organizaria os Conjurados, não seriam os heróis da nossa história, mas talvez eu, um José Maria vindo do Porto.

Na mui nobre e sempre leal Invicta, e já no séc. XXI, ainda é possível para um pequeno conspirateur ser feliz conquanto essas mecas do “fala baixinho” permaneçam abertas. Bem ao lado da aorta da cidade e à beira da estrada plantadas, encontram-se o Club 21, o Bar 1900 e a Taberna do Zé. Todos eles partilham, para lá do bom ambiente e bebida, uma particularidade essencial: névoas de fumo, capitais para os momentos que lá procuramos passar. Sim, é essa bruma de nicotina que entranha o misticismo vintage que lhes é inerente. Podíamos, em vez do Fernandes e do Ferreira, imaginar que ali se construía o Sinédrio, com Fernandes Thomaz e Ferreira Borges em intensas e educadas discussões. Sim, era à batelada dos bafos rítmicos do charuto, cigarro ou cigarrilha que eles, e nós por imitação, produzíamos grandes histórias, nestes nossos meios tão pequeninitos.

Tudo se passa depois do jantar e de uma promessa de retorno a casa a horas decentes. No Club 21, onde por regra tudo começa nesta cidade, vamos à procura dos mais frescos finos do Porto, acompanhados (depois de um peixe cozido insatisfatório do jantar em casa)  dos melhores preguinhos que se podem encontrar na zona – opinião controversa a que este vosso autor aceitará com graça as críticas que lhe remeterem. No entanto, estes pãezinhos, normais como às coisas mais normais possíveis, são divinamente abençoados com tiradas grossas mas tenras, maçudas de matéria mas suculentas, do famoso roast beef da casa. Se a receita parece simples, garanto que o sabor também o é. Ainda assim, não queremos a simplicidade num preguinho? Carne boa e pão para o acomodar? Não há necessidade de mudar equipas vencedoras e o Club 21, apostando na qualidade das coisas simples, não o fez e venceu.

Nesta altura, terminada a ceia, é preciso digerir a pequena refeição e a longa conversa que já toma curso. Não nos deixam morrer de miséria naquele espaço: o cenário lascivo e pantagruélico de destilados, exibidos ao balcão, como um piropo à nossa fraca carne humana. Cedemos (sempre) a essa última tentação antes de percorrer os dez metros que distam o 21 do 1900.

Com esta mudança de milénio, apesar de supormos um retrocesso temporal, chegamos a um dos bares mais in do Porto. In não porque está na moda, mas porque, por alguma razão, todas as pessoas da minha geração acabam por lá ir. Lá chegados damos de caras com o Martins, corpo e alma do sítio, dono do estabelecimento e único empregado do mesmo. O Martins, ou senhor para quem não se atreve em confianças, recebe-nos sempre com uma graça ou pequeno comentário – sendo esses daquele género que uma pessoa nunca tem muito bem resposta e acaba por disparar um riso desengonçado, terminando assim o desconforto na esperança que este se repita quando de novo lá se voltar.

O bar, escuro como breu, onde a música de fundo abafa os romances ou os caciques das mesas vizinhas, com o seu estilo profundamente vintage de hotel, conseguindo recriar uma decadência que nos atrai a ser participantes dela, tem como receita principal as “minis”. Toda a gente pede as ditas minis (Super Bock only). O Martins, frenético entre as mesas, percorre o bar a distribuir as doses diárias, salpicando alguma cerveja na alcatifa que foi o primeiro palco de muitos “primeiros passos”. Aí, estando já quase na alvorada do novo dia, a conversa mostra sempre uma tendência para se adensar. Nesta altura, cigarro após cigarro, cerveja após cerveja, os cargos são mercantilizados, o xadrez político começa a ser composto, sendo unicamente possível porque a reserva de intimidade não é violada de mesa para mesa. Na verdade, muitos foram os líderes carismáticos deste meio que tomaram as suas derradeiras decisões no bar que respira, para mim, mais carisma na cidade.

Por fim, e como se sabe que a fome política faz sempre rapar mais um tacho, quando tudo resto encerra, a nossa noite continua um quarteirão acima na mítica Taberna do Zé. O cansaço da conspiração já começa a tomar os nossos olhos, mas a paixão por noites prolongadas fala bem mais alto.

Enquanto noctívagos, a Taberna é o deleite dos meus prazeres por se manter indefinidamente aberta. Aliás, em muitos anos de prática destas noites nunca fiz um “fecho” à Taberna. O Zé não fecha e esta inverdade é dogmática nos erráticos das noites longas, onde dormir é considerado pecado. É com as tulipas de cerveja e um “pica-pau”, picantezito à  moda do Zé,  que se ultimam as conclusões da noite e onde as verdades começam a ser expostas junto com a luz da manhã que nasce. O rock português dos 80s e 90s embala-nos numa nostalgia paradoxal a estas definições futuras de que ali tratamos. Até que nos despedimos, com um abraço aos irmãos Lobo (proprietários), e seguimos, cada um de nós o nosso caminho, na esperança de que esta noite “não, não foi, um caso isolado”.

Chegado a casa, cheio de certezas, cheio de planos, cheio de conversas, bebida e comida para processar, com uma mãe já acordada, ciente de que esta não seria a noite em que a promessa de chegar cedo seria cumprida, qual filho pródigo brindando-me com uns ovos estrelados. Eu já só sonhava com a cama, para onde fui, dormindo na certeza que a tradição de visitar as mecas se mantém viva e cá estaremos, quando tudo isto passar, prontos para abrir e fechar estes templos da cidade do Porto.


José Maria Couceiro da Costa
Estudante

 

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