Casa Chef Victor Felisberto | Uma jangada entre o ontem e o amanhã

A experimentar

“Sempre notei que as pessoas falsas são sóbrias, e a grande moderação à mesa geralmente anuncia costumes dissimulados e almas duplas.” Jean-Jacques Rousseau

A jangada de Pedra de José Saramago é um romance extraordinário com um enredo fantástico e envolvente, personagens carismáticas (até sedutoras), juntamente com umas noções políticas e filosóficas bastante profundas. Interpretar o Brexit, depois de ler este livro publicado em 1986(!!!), faz-nos perceber a genialidade deste escritor. A narrativa é muito imaginativa. A Península Ibérica separa-se da Europa e começa a flutuar no Oceano Atlântico. Cinco pessoas e um cão, que passaram por acontecimentos bizarros e que podem (ou não) estar relacionados com a península separatista, encontram-se nessa jangada peninsular e iniciam uma bela aventura juntos.

Casa Chef Victor FelisbertoUm desses personagens faz constantemente uma linha mágica na ilha e que é impossível de apagar,  outro torna-se um sismógrafo, outro é perseguido por pássaros, outro exibe uma capacidade de lançamento de pedras invejável e outra desfaz uma meia … infinitamente. O cão também revela capacidades de percepção extraordinárias.  Os cinco, mais o cão (não quero ter problemas com o PAN ;)) iniciam assim a procura por uma explicação para o comportamento rebelde da península. Durante o percurso errante desta no oceano Atlântico, percebe-se que a mesma está em rota de colisão com o arquipélago dos Açores.

Casa Chef Victor FelisbertoPosteriormente e de forma inexplicável, a Península Ibérica desvia-se dos Açores e desloca-se para Norte, permitindo o regresso a casa das populações deslocadas. O estilo de escrita de Saramago, que o vai tornar mundialmente famoso, tem neste livro uma etapa muito peculiar. Não há aspas ou quebras de linha para o diálogo. Às vezes, as frases e os parágrafos têm muitas palavras, misturando-se nas falas dos personagens com as do narrador.

Casa Chef Victor FelisbertoApesar de todos estes predicados e da (assustadora) actualidade da mensagem, o que mais gostei n’A jangada de pedra é o motivo do “desprendimento” da península, no qual é traçado um paralelismo interessante com o movimento transformador que por vezes ocorre nas pessoas. A interpretação da viagem ibérica, de uma península transformada em jangada por Saramago, mostra-nos a importância da busca de um sentido para a mudança e do questionamento quanto aos motivos que nos fazem estar presos a certos lugares.

Casa Chef Victor FelisbertoO trajecto dessa jangada pelo mar, não simboliza apenas a viagem existencial da nação portuguesa que procura (a)firmar-se noutro ponto do mundo com uma nova autonomia política, económica e social, através do mar “déjàvunamente” desconhecido, mas também da nossa própria viagem, enquanto indivíduos, que devemos promover sempre que sentirmos a necessidade de conhecer novos horizontes, de quebrar velhas fronteiras e cimentar novas alianças. Trajecto esse que é bastante familiar ao Chefe Victor Felisberto, do qual vos vou falar hoje.

Casa Chef Victor FelisbertoQuem se interessa por estas coisas da gastronomia sabe que o Chefe Vitor Felisberto é uma enciclopédia culinária, um mentor de alguns dos mais afamados Chefes do país e uma lenda viva da melhor gastronomia portuguesa. Nascido na Golegã, correu mundo a lavar pratos, estudou na prestigiada Cordon Bleu, conquistou uma estrela Michelin em cada um dois restaurantes por onde passou (Aquarius Caldea – Andorra e Portal – Reino Unido) e vendeu a sua receita de fondant de chocolate à Nestlé. Deste 2018 está em Abrantes, a 100 metros da EN2, no Restaurante Casa Chefe Victor Felisberto a “passear-se” com a excelência do seu currículo.

Casa Chef Victor FelisbertoPratica uma cozinha aparentemente simples, mas refinada, carregada de sabor e potenciador das mais valias dos ingredientes frescos e locais. Comi lá dos melhores pratos do ano passado, umas Ovas de Choco com azeite, alho e coentros divinais, carregadas de mar, untuosidade e sabor. Valem, por si só, uma viagem a Abrantes. O Bacalhau no forno com batata a murro estava cozinhado no ponto, era fino, delicado, vegetal e ligeiramente fumado, provocando uma explosão de voluptuosidade salina e sabores apurados, simplesmente  … delicioso!!!

Casa Chef Victor FelisbertoNas carnes o Pernil confitado em forno a lenha estava super rico, e sedoso (fica a cozinhar durante a noite para adquirir esta textura de veludo), com imenso sabor e carregado de aromas, sucos e memória. Por sua vez o aromático Assado Misto com naco de vitela e cachaço de Porco preto estava tão intenso quanto prazeroso.

Casa Chef Victor FelisbertoQuem me conhece sabe que não sou muito de doces, sobretudo depois de um repasto intenso, epifânico e sem moderação como o anterior, no entanto,  a Tarte Tatin com crumble e gelado de baunilha, o Pastel de Nata Fondant com shot gelado de canela e nata e o Cremoso de Brownie com gelado de caramelo e nozes são propostas às quais não se consegue ficar indiferente.

Casa Chef Victor FelisbertoSobranceria nos aromas, luxuria na apresentação, riqueza nos sabores, originalidade nas texturas e genialidade na confecção. Do melhor que se faz no nosso país!!! Esta doçaria tem ainda o condão de promover um contraste conceptual muito engraçado com os pratos principais, tornando qualquer refeição numa viagem frenética por entres diferente eras, estilos, técnicas e inspirações.

Casa Chef Victor FelisbertoEste almoço demorou mais de 3 horas, foi regado com alguns dos melhores vinhos regionais e teve sempre um serviço muito próximo e amigo. Abrantes é um daqueles lugares pelos quais, sempre que passei, foi em viagem para outro sitio qualquer, mas descobri, neste dia, que é uma cidade muito atraente e interessante, com um centro histórico muito bem conservado, um castelo e uma fortaleza, que valem, sem dúvida nenhuma, uma visita.

Casa Chef Victor FelisbertoAinda assim, na minha memória, ficou mais vincada a excelência gastronómica que promove uma bonita relação entre a tradição de ontem (nos salgados) e a inovação do amanhã (nas sobremesas), levada a cabo pelo estrelado Chefe Victor Felisberto, que não teve dúvidas nem hesitações em seguir o seu coração (e estômago ;)), pegar na sua jangada, deixar os prémios, reconhecimento e fama, e voltar a começar tudo de novo, numa pequena cidade na planície ribatejana.  Parabéns e obrigado por um dos melhores momentos que o blogue teve no ano passado.

O artigo foi publicado originalmente em No meu Palato.

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