Novas colheitas Costa Boal | Uma nuvem na toca do coelho

A experimentar

“«Mas o que quer dizer este poema?» – perguntou-me alarmada a boa senhora. «E o que quer dizer uma nuvem?» – respondi triunfante. «Uma nuvem?» – disse ela – «umas vezes quer dizer chuva, outras vezes bom tempo…»” Mário Quintana

150 anos após o seu lançamento, Alice no País das Maravilhas permanece um clássico, desde a cultura pop até ao cinema, passando até pela gastronomia. Popularidade essa que é resultante do seu elenco criativo, poemas fantásticos e cenas inusitadas, muito apreciados ao longo de diversas  gerações. A história desafia a lógica da maneira mais fantástica possível: bebés que se transformam em porcos, lagartas que distribuem conselhos, flores que insultam, lagostas que dançam e croquetes que brincam com flamingos. Devido a todo este cenário encantado podemos ser levados a pensar que este conto de Lewis Carrol é apenas mais uma história infantil e que por isso não deve ser levada muito a sério.

Novas colheitas Costa BoalNo entanto, quando lemos com mais cuidado e atenção, percebemos que existe lá mais filosofia, espiritualidade, política, economia, normas sociais e metáforas culturais que em muitos livros (tidos como) para adultos. Nesta narrativa, os diferentes elementos do enredo cruzam-se com as diferentes etapas do crescimento de Alice, por entre a sua infância e a sua adolescência. Devido a isto, a criança-adolescente vê-se embrulhada numa busca romântica pela sua própria identidade, através da compreensão da lógica/regras dos diferentes jogos e que lhe vão dar noções de autoridade, de tempo e de vida. Uma das metáforas mais felizes que podemos encontrar nesta obra tem a ver com a toca do Coelho Branco.

Novas colheitas Costa BoalA descida por esse buraco na verdade significa uma subida significativa na busca por um conhecimento verdadeiro. Será que essa toca, é um buraco filosofal? Poderá ele conduzir-nos a um mundo onde podemos voltar ao cérebro “não moldado” de uma criança?  Quando abordamos o livro com isto em mente, as suas páginas oferecem-nos interpretações interessantes e significativas de diversos aspectos da nossa vida, sendo uma delas relativa ao tempo e o modo como o passamos, ou deixamos passar. O tempo no País das Maravilhas parece ser algo turbulento e confuso. As personagens correm a todo o momento, ansiosas,  predominando uma sensação de pressa.

Novas colheitas Costa BoalTudo parece acontecer na hora certa ou então abruptamente. É exactamente aqui que o tempo começa a ser questionado por Lewis Carroll. Quando o Coelho Branco chega atrasado logo no início da história (dando início às principais aventuras), Alice questiona-o sobre a duração da eternidade — algo imensurável, mas recebe uma das respostas mais marcantes do livro: “Às vezes dura apenas um segundo”. O Coelho Branco é, em muitos aspectos, uma metáfora do burocrata moderno desgastado pelo tempo e pela pressão implacável a que a falta dele inevitavelmente conduz. É claro que ninguém na sociedade contemporânea acredita, verdadeiramente, que esteja mais ocupado do que a geração anterior, preferimos acreditar que estamos antes “constantemente ligados” e conectados, através de uma nuvem digital,  a mais pessoas nas diferentes vidas da nossa vida.

Novas colheitas Costa BoalSe pensarmos na diferença entre a vida pré-primeira Guerra Mundial (onde 90% da população vivia da agricultura); e a vida pós-primeira Guerra Mundial (onde essa situação foi revertida com a imergência da vida urbana), percebemos que o tempo na nossa vida deixou de ser medido pelo relógio sazonal da agricultura para passar a ser consultado num relógio, sempre atrasado e veloz, de um Coelho Branco. Numa determinada etapa da nossa vida, longe da altura em que desejávamos que os dias passassem rápido e que os anos se sucedessem rapidamente, parece que começamos a sentir a necessidade de segurar o tempo: queremos deixar de ser o Coelho Branco.

Novas colheitas Costa BoalÉ aqui que os segundos passam a ter um valor incalculável. A maturidade é algo que nos faz ter não só a capacidade mas também a coragem de nos desfazermos do ímpeto de querer alcançar o máximo de tudo no mínimo de tempo possível. Com esse “desprendimento” o passar dos dias passa a ter um outro significado.  E nesse caso, sim, um segundo pode ter a duração de uma eternidade. Mas isso não é magia, é maturescência, aquela que nos faz saber esperar e dar valor ao tempo e às coisas que só o tempo permite alcançar.

Novas colheitas Costa BoalNo mundo dos vinhos, por vezes, este modo coelho-brancamente ansioso de encarar o “negócio”, de produzir para ontem, do imediato, do hoje, predomina, mas noutras vezes, há quem tente entrar na toca e abrandar as coisas, acrescentando valor através do tempo. Os novos vinhos do Douro da Costa Boal são por isso uma lufada de ar fresco que sai dessa toca. São estruturados, com uma acidez viva e marcas de pertença ao lugar onde nasceram, características essas que honram a sua origem.

Novas colheitas Costa BoalNo entanto, e apesar de já darem uma prova bonita, não foram pensados, apenas, para consumo imediato. São vinhos para se ir conversando de vez em quando, sem olhar para o relógio, com tempo e paciência: vinhos com longevidade. Começo por vos falar acerca do Costa Boal Tinto Cão 2017 (35 €, 87 pts.). De cor retinta, carrega notas delicadas e subtis de frutos vermelhos, groselha, framboesa espinheiro, urze, cedro e pimenta preta.

Novas colheitas Costa BoalNo palato passeia com taninos redondos, elegância, frescura e equilíbrio. A percepção vegetal retronasal faz com que ganhe uma maior largura. Por sua vez, o rubi denso Costa Boal Sousão 2017 (35 €, 89 pts.) exibe no nariz, mirtilos, amoras, violetas, cassis, tabaco, cacau e açafrão. Na boca é mais fresco que o Tinto Cão e conta também com taninos mais austeros. É encorpado, complexo, longo e carnudo.

Novas colheitas Costa BoalPara o final, o melhor (e um que não vai agradar a todos): Costa Boal Homenagem Grande Reserva 2015  (35 €, 90 pts.),  produzido a partir de uvas colhidas numa vinha da Costa Boal localizada em Cabêda, Alijó. É um vinho de parcela e de lote, incluindo no conjunto as castas Códega de Larinho, Rabigato, Gouveio e Arinto. Teve estágio de 18 meses em barrica de carvalho francês e foi refrescado com um lote da colheita de 2017, da mesma parcela.

Novas colheitas Costa BoalDe cor amarela-palha tem um nariz tão bonito quanto subtil, com limão, pêssego, maçã-verde, melão, avelã tostada, acácia e borras. É um vinho muito vivo, moderno, ligeiramente “verde”, fresco e super elegante, características que lhe garantem a ambicionada longevidade. Há que não ser Coelho Branco e saber esperar pelo seu melhor. Acompanhou, na perfeição, um arroz caldoso de lavagante.

Novas colheitas Costa BoalComo a alarmada e boa senhora de Mário Quintana referiu, a nuvem por vezes quer dizer chuva, noutras vezes bom tempo. Nos tempos, digitais, que correm é um conceito que engloba os grandes sistemas (redes de dados online) que estão distantes demais para haver interacção física, mas que ainda assim, nos afectam e nos fazem estar sempre ligados uns aos outros. Segundo uma antiga tradição chinesa, a nuvem simboliza outra coisa, a transformação que devemos sofrer, renunciando ao nosso ser perecível imediato de modo a alcançarmos uma maior longevidade, por vezes, até a eternidade, algo que quem pensou estes vinhos tem em mente.

Arroz caldoso de lavagante:

-Num tacho façam um refogado com azeite, cebola, dentes de alho e pimentos, previamente descascados, lavados e picados finamente (deixem cozinhar até que fiquem douradinhos);

-Reguem com polpa de tomate, vinho branco, brandy e tabasco,  acrescentando uma folha de louro e um ramo de coentros. Deixem refogar mais um pouco. Adicionem água e rectifiquem os temperos.

-Juntem o marisco (usei ameijoa, camarão e lavagante) e o arroz e deixem cozinhar durante cerca de 20 minutos (até que tudo fique cozido).

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