Cais da Villa | Assim Nasce Uma Estrela

A experimentar

“A boa comida é como a música que se saboreia, como a cor que se cheira. Há excelência em seu redor.” Gusteau

A apreciação final do crítico gastronómico Anton Ego, personagem do filme Ratatouille, fornece-nos aquilo que pode ser uma visão surpreendente sobre a gastronomia e tudo aquilo que a rodeia. No filme, Ego enamorado pelo facto das suas críticas poderem cimentar ou destruir a fama de um determinado restaurante, repreende publicamente Gusteau pela democratização da gastronomia gourmet perpetrada por este Chefe no seu restaurante em Paris, o Gusteau’s. Depois da morte de Gusteau, Ego quase que se alegra com a sua partida, em parte porque um novo Chefe, terá agora, forçosamente, de atrair o mediatismo que Gusteau havia conseguido, e Ego estaria na linha da frente, para o permitir … ou não.

Cais da VillaCerta noite, o poderoso crítico, decide ir jantar ao Gusteau’s e pede ao novo Chefe que o surpreenda. Remy, esse chefe, sabendo aquilo que está em jogo, o prestígio do restaurante, decide arriscar e preparar ratatouille, um prato tradicional francês feito com vegetais. Quando Anton Ego o experimenta, o seu sexto sentido entra em acção, aquele que resulta da importância das nossas memórias ao saborear uma refeição. É o toque pessoal de Remy que consegue impressionar Ego, fazendo-o recuar à sua infância no campo e à deliciosa ratatouille que a sua mãe lhe havia preparado. Graças a este sucesso, o restaurante Gusteau’s recupera todo o seu prestígio no mundo da cozinha, levando Anton Ego a fazer o seguinte discurso:

Cais da Villa“De certa forma, o trabalho de um crítico é fácil. Arriscamos pouco e temos prazer em avaliar com superioridade os que nos submetem seu trabalho e reputação. Ganhamos fama com críticas negativas, que são divertidas de escrever e ler, mas a dura realidade que, nós críticos, devemos encarar, é que no quadro geral, a mais simples porcaria, talvez seja mais significativa do que a nossa crítica. Mas, há vezes em que um crítico arrisca, de facto, alguma coisa, como quando descobre e defende uma novidade. O mundo costuma ser hostil aos novos talentos, às novas criações. O novo precisa ser incentivado. Ontem à noite eu experimentei algo novo; um prato extraordinário de uma fonte inesperadamente singular. Dizer que tanto o prato, quanto quem o fez, desafiam minha percepção sobre gastronomia, é extremamente superficial. Eles conseguiram abalar minha estrutura… Nem todos podem se tornar grandes artistas, mas um grande artista pode vir de qualquer lugar.”
Cais da VillaEu, uma espécie de crítico gastronómico, tal como os mais consolidados, também gosto da descoberta de algo novo, e é isso que, por vezes, me faz correr um país por causa de um Chefe ou de um restaurante. Em busca de algo que não estou à espera. Um dos mais recentes momentos inusitadamente Anton Ego foi no Cais da Villa com o Chefe Daniel Gomes.

Cais da VillaOuvi falar do restaurante há uns anos através da sua ex-relações públicas, a Celeste Pereira. Por um motivo, ou por outro, fui sempre adiando a visita a este restaurante. A roadtrip pela EN2, estrada que passa a apenas 50 metros do restaurante, foi a desculpa ideal para honrar o compromisso que havia feito com a Celeste.   O Cais da Villa é um espaço de memória e modernidade edificado num espaço com valor histórico, elegância e conforto, resultado de uma reabilitação cuidada do centenário armazém ferroviário da estação de Vila Real.

Cais da VillaNeste espaço de ambiente informal funciona o restaurante à carta, o wine bar com serviço de tapas e bifes, a garrafeira, uma esplanada (para os dias de sol) e um balcão a toda a largura, aberto sobre a cozinha do restaurante, que deixa antever um festival de sabores, texturas e cheiros.  A conduzir este comboio gastronómico, como já vos havia referido, está o Chefe Daniel Gomes que criou um menu de degustação sedutor, rico, complexo e que na sua heterogeneidade, no final, faz sentido nos sentidos que nos desperta.

Cais da VillaUm menu fino, elegante, inteligente que, com certeza, orgulha Douro e a gastronomia da região transmontana. Um menu que democratiza a comida ecléctica no interior do país e que é harmonizado com a mestria do escanção Luís Ferreira, que retira o melhor de cada vinho para fazer sobressair os sabores no palato.  Esse menu começou com as boas-vindas do Chefe: Esparguete de pepino, sashimi de salmão, funcho, figo caramelizado com vinho do Porto, brioche,  presunto e gel de beterraba. Muito rico ao nível das texturas e sabores e com uma untuosidade fresca, muito assertiva e prazerosa.

Cais da VillaSeguiu-se um Tataki de Atum crocante de Húmus de grão de bico, puré de abacate, gel de salsa,  chicória , vinagrete de citronela e gengibre. O peixe era tão amanteigado e fresco que na verdade não precisava de grande tempero. No entanto essa dose extra de sabor deu-lhe mais camadas de texturas e gostos, fazendo com que cada garfada provocasse pequenas explosões de sabor no nosso palato.

Cais da VillaEste prato que mistura de forma muito bonita e singela diversas origens, técnicas e ingredientes, é um bom resumo daquilo que é o Cais da Villa: modernidade e inovação, assente no produto e tradição. Para o Gaspacho de Tomate Coração de Boi, melancia e vieira braseada, foi usado o tomate ex-libris do restaurante e umas das paixões do Chefe, talvez resultante do tempo passado com a Celeste. 😉

Cais da VillaExibia uma frescura, uma acidez e uma intensidade de sabores viciantes. A combinação com a alma salina e delicada das vieiras fizeram o prato crescer ao nível do equilíbrio e complexidade. Este é um daqueles que não deveria sair da carta, quando o tomate o permitir.

Cais da VillaCom o Supremo de corvina com lulas salteadas em manteiga de citrinos e coentros com creme de espargos chegou um peixe super suculento com um toque a fumo delicioso, umas lulas ligeiramente amargas e com os temperos na dose precisa e um creme de espargos tão voluptuoso quanto pecunioso. Em conjunto uniram-se nas suas heterogeneidades provocando uma sensação organoléptica muito rica.

Cais da VillaAinda nos peixes, Polvo grelhado com batata ao alho e migas de couve, pimento e azeitonas. Com os tentáculos crocantes por fora, quase que levemente confitados, e por dentro gulosamente tenros e suculentos, o polvo estava irrepreensível.  Para além de um nota ligeiramente picante e doce, o pimento conferiu um pano de fundo vegetal, fresco e adstringente ao polvo. As especiarias contribuíram para seduzir o palato e a originalidade das migas de couve para apaixonar o intelecto.

Cais da VillaNas carnes, tivemos o prazer de saborear a untuosidade requintada da Presa de Porco Bísaro, favas guisadas com cuscos Transmontanos e fumeiro tradicional. Essa untuosidade era conjugada com a acidez, intensidade e riqueza aromática dos restantes ingredientes, provocando um jogo de sabores incrível, que apesar de ter uma apresentação mais eclética, no final nos transportava para sabores tradicionais.

Cais da VillaOs cuscus também são dignos de destaque, um prato de conforto, cozinhado com tempo e favas, pareciam um risotto, com alma duriense, inebriantes. Se os cuscus me fizeram recordar um risotto, o próximo prato assemelhava-se a um petit gâteau transmontano. Posso-vos já relevar que é a sobremesa do ano para o blogue .;)

Cais da VillaDenomina-se Pão-de-ló à CAISDAVILLA e é servido com uma base de creme de ovos, frutos silvestres e sorvete de limão. Passeia-se sedutoramente na boca entre o quente e o frio, numa experiência glorifiada pelos contrastes. É muito saboroso, bem pensado e estrategicamente ponderado, como uma roda-viva de sensações e texturas que celebra o final da refeição. Tão bom que não acrescento muito mais sobre ele, apenas sugiro que o provem…

Cais da VillaSobre o papel dos críticos, Theodore Roosevelt disse certa vez que: “não é o crítico que importa, nem aquele que mostra como o homem forte tropeça, ou onde o realizador das proezas poderia ter feito melhor. Todo o crédito pertence ao homem que está de facto na arena”.

Cais da VillaO grande homem que se encontra nesta arena gastronómica é Daniel Gomes, e não arrisco nada, nadinha mesmo, ao dizer, uns anos antes de isso se materializar, que estamos a assistir ao nascimento de uma estrela, daquelas estrelas que contam para os Chefes, é só dar tempo ao tempo e condições ao homem. Alma, conhecimento e capacidade já ele os tem. Há excelência em redor deste grande artista. 😉

Parabéns e obrigado pelo menu incrível que concebeste.

O artigo foi publicado originalmente em No meu Palato.

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