Uma gastronomia saudável, para nós e para o planeta

A experimentar

Sabemos que o património culinário português é vasto e diversificado, com usos e costumes que representam as nossas regiões e o nosso país. E sabemos que a nossa gastronomia abrange aspetos culturais relacionados com a forma como os alimentos são preparados e apresentados.

Mas, será que poderemos adicionar a sustentabilidade à nossa gastronomia?

Vejamos, umas das principais preocupações da gastronomia sustentável reside na seleção das matérias-primas, contribuindo assim para a conservação da biodiversidade. Neste sentido, é importante: utilizar produtos locais e da época – além de diminuir o efeito de estufa dos alimentos, promove-se a agricultura local e a qualidade de vida; utilizar espécies que não se encontrem em vias de extinção – promovendo a biodiversidade; 3) optar por produtos provenientes do modo de produção integrado – evitando-se, assim, a contaminação excessiva por pesticidas, herbicidas e outros produtos tóxicos, nos solos e nos alimentos; evitar o desperdício de alimentos – preparando na justa medida do necessário e utilizando todas as partes comestíveis do alimento promove-se a utilização completa de todos os nutrientes; utilizar métodos de confeção que sejam simples e saudáveis, por exemplo, estufados, ensopados e as caldeiradas.

Compreendemos assim que a resposta a pergunta deverá ser afirmativa, pois a gastronomia sustentável é ambientalmente responsável, podendo promover o desenvolvimento agrícola e a produção consciente de alimentos, além de fortalecer a conservação da biodiversidade e contribuir para o direito de todos a terem uma alimentação adequada e com uma expressão cultural relacionada com a nossa diversidade natural.

Em 2019, um conjunto de cientistas mundiais trabalharam neste domínio e a conceituada revista científica Lancet publicou as conclusões do seu relatório, que ficou conhecido como Food in the Anthropocene [período geológico em que a ação do homem começou a transformar o planeta] sublinhando que o planeta não terá capacidade de alimentar tantas pessoas sem uma transformação dos hábitos alimentares, uma melhoria na produção e uma redução do desperdício. Este relatório procura criar um modelo alimentar que articule a saúde com a sustentabilidade ambiental.

De facto, é essencial assegurar alimentos de qualidade e em quantidade suficiente para todos os indivíduos que habitam o planeta, garantindo a sua sustentabilidade presente e futura.

Urge pensar em simultâneo que a população deve ter acesso a alimentos suficientes e de qualidade para uma dieta equilibrada, mas sem que isso belisque a sustentabilidade do planeta, nem ponha em causa o acesso de todos a uma alimentação adequada e que conserve a tradição gastronómica, projetando-a no futuro.

O receituário tradicional português pode inserir-se neste conceito. Lembremo-nos que ele é caracterizado por ser uma culinária simples e rápida, para o dia a dia, e elaborada e complexa para os dias festivos. Assim, folheando vários livros que transcrevem receitas tradicionais portuguesas, constatamos a riqueza e a diversidade de alimentos bem como a variedade dos métodos de confeção.

No que respeita aos alimentos utilizados eles são essencialmente produtos locais e da época, em regra provenientes da nossa agricultura, como os produtos hortícolas, as leguminosas, as batatas, mas também da nossa pesca e pecuária como a sardinha, a cavala, o porco e as galinhas, a que se junta o bacalhau que não sendo nosso, recebe o tratamento que o caracteriza no nosso território. Marcam também presença parcimoniosa os enchidos, como intensificadores de sabor em alguns pratos, permitindo reduzir a quantidade de carnes e constituindo, em si, uma forma de conservação e de aproveitamento das várias partes do animal.

Muitos destes pratos são a tradução do padrão alimentar mediterrânico. Não há dúvida de que o receituário tradicional português está recheado de pratos saudáveis e sustentáveis e porque comer bem é mesmo um dos melhores remédios para a melhoria e preservação da nossa saúde e bem-estar, e para o nosso planeta, podemos, e devemos, reabilitar as suas receitas.


Alexandra Bento
Bastonária da Ordem dos Nutricionistas

 

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