TITAN of Douro – Fragmentado | 1 por todos e todos por 2

A experimentar

“Um homem de génio é produzido por um conjunto complexo de circunstâncias, começando pelas hereditárias, passando pelas do ambiente e acabando em episódios mínimos de sorte.” Fernando Pessoa

Holismo é a noção de que todos os elementos de um sistema, sejam físicos, biológicos, mentais, económicos, sociais ou políticos, estão interconectados e que por isso devem ser apreciados como um todo e não “olhados” individualmente. O princípio geral do holismo foi resumido de forma concisa por Aristóteles (século IV a.C.) na Metafísica: “O todo é mais do que a soma da suas partes.

FragmentadoAristóteles concebia o mundo (e cada ser nesse mundo), como um conjunto de entidades mutuamente interrelacionadas e parte de um todo teleologicamente organizado. Tendo esse todo uma sinergia gerada por interacções mútuas entre os diferentes constituintes, será sempre maior, melhor ou mais importante, que a simples soma aritmética das partes que o constitui.

FragmentadoNos vinhos, sobretudo naqueles “de topo” esta visão holística é cada vez mais importante. O enólogo tem que saber tirar o melhor partido dos vários lotes à sua disposição, sejam eles provenientes de vinhas diferentes, castas distintas, tenham envelhecido em diferentes tipos de barricas ou na mesma barrica durante tempos diferentes.

FragmentadoO “segredo eno-holístico” não pode ser, simplesmente, a escolha do melhor de cada barrica ou casta, tem de ser a escolha do melhor de cada barrica ou casta para que no blend final tudo seja equilibrado, harmonioso e faça sentido. Se na adega o enólogo souber “brincar” com este puzzle vínico, o resultado serão vinhos completos, complexos, ponderados, equilibrados e – claro – bem melhores que as partes que lhe deram origem. O Luís Leocádio fez isso de forma particularmente brilhante nos seus novos vinhos, os TITAN of Douro – Fragmentado, um tinto e um branco.  Dois vinhos “fora da caixa”, encantadores e com pinceladas de genialidade, começando pelas hereditárias, passando pelas do ambiente e acabando em episódios mínimos de sorte. ;)

Fragmentado“Irregulares, dispersos e variáveis são os fragmentos dos nossos solos graníticos. A eles juntamos os restantes fragmentos que trazem para um vinho uma harmonia inabalável e identidade inquestionável: a altitude, a personalidade de cada uma das castas misturadas e plantadas há mais de um século e o saber das nossas gentes! A este Fragmentado demos o melhor de Nós!”, conta o Luís (produtor e enólogo).

FragmentadoComeço a descrição dos vinhos por aquele que mais me impressionou nos últimos tempos, o Fragmentado Branco Blend I (90 €, 97 pts.). Resultante de uvas de parcelas de vinha centenária, plantadas a uma altitude entre os 750 metros e os 850 metros, com um solo de transição xisto granítico, de uma apanha à mão e de uma mistura de vinhos de vários anos (2 barricas de 2015 – 4 anos de estágio, uma barrica de 2016 – 3 anos de estágio, outra de 2017 – 2 anos de estágio, e outra de 2018 – ano e meio de estágio), este é um vinho de joelharia, o melhor branco português que provei até hoje.

FragmentadoNo copo apresenta-se amarelo-palha cristalino e límpido. Entra no nariz com aromas a hortelã-pimenta, toranja, limonete, damasco e com muita energia, evoluindo mais tarde para notas de panificação, melaço, brioche e um leve apetrolado. No palato é untuoso, balsâmico, mineral (granito molhado), crocante, encantadoramente fresco e muito elegante. É equilibrado, harmonioso, ponderado, complexo e genuíno, uma preciosidade.

FragmentadoFragmentado Tinto 2017 (90 €, 94 pts.) provém de vinhas nas mesmas condições geográficas do branco e com o mesmo cuidado na apanha e maturação. As uvas são depois manualmente desengaçadas e pisadas a pé em lagar de pedra, onde fermentam. Posteriormente o vinho segue para barricas de carvalho francês onde permanece em estágio durante 32 meses.

FragmentadoDe todo este processo resulta um vinho rubi denso com auréola atijolada e com aromas arbustivos, sous-bois molhado, alcatrão, iodo, pimento vermelho, cedro, ameixa preta, alcaçuz, esteva e uns apontamentos balsâmicos deliciosos. Na boca passeia-se com classe, voluptuosidade, taninos aguerridos, complexidade, enorme frescura, intensidade e até alguma sobranceria. ;)

FragmentadoAmbos os vinhos foram engarrafados numa Borgonha CRU classe de modo a permitir uma evolução mais serena, uma vez que este tipo de garrafa concentra o vinho numa área mais pequena perto da rolha (levando a uma menor e mais lenta interacção com o oxigénio). A este “pormenor” juntam-se a elevada grossura do vidro e caixa de madeira em gaveta que dão ao vinho protecções extra contra as variações térmicas, levando a que este envelheça de forma constante e positiva.

FragmentadoSão vinhos com denominadores comuns óbvios, de que são exemplo a enorme complexidade, a elevada frescura, a mineralidade muito própria, a intensidade inebriante, a harmonia completamente arrebatadora e a identidade muito vincada. É por todos estes detalhes que acho que a noção holística que o Luís desenvolveu nestes vinhos não se esgota apenas na construção de cada um individualmente, mas na sua concepção em conjunto. São vinhos que fazem sentido juntos, mesmo fragmentados em garrafas diferentes. Assim sendo, o mote de Alexandre Dumas, em os três mosqueteiros, terá de ser alterado para: 1 por todos e todos por 2 … vinhos ;) Parabéns Luís!!!

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